O ambiente de juros e inflação ainda elevados no Brasil deve favorecer empresas com geração previsível de caixa, baixa alavancagem e histórico de pagamento de dividendos na Bolsa, segundo avaliação de Raphael Figueredo, estrategista de ações da XP. Durante almoço com jornalistas, investidores e analistas realizado nesta quarta-feira (4), em São Paulo, o executivo apontou que a combinação de taxa Selic alta e incertezas econômicas muda a preferência dos investidores, que passam a buscar ativos capazes de oferecer rendimentos mais previsíveis, em detrimento de companhias mais dependentes de condições financeiras favoráveis. Nesse contexto, o estrategista observa oportunidades principalmente em dois grandes grupos da Bolsa: os setores defensivos e financeiro. Segundo Figueredo, papéis dos dois segmentos conseguiram superar o CDI em janelas de cinco, 10 e até 15 anos, quando considerados conjuntamente os ganhos com a valorização das ações e os rendimentos distribuídos aos investidores. Olho no cenário fiscal e em 2027 A avaliação do executivo é a de que o mercado está entrando em um período de maior aversão ao risco, no qual os investidores tendem a privilegiar ativos mais resilientes e com maior previsibilidade de resultados. A estratégia também passa por observar como as expectativas serão reancoradas diante dos próximos anúncios da equipe econômica e das políticas prometidas pelo novo governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT). O ponto de atenção, segundo Figueredo, não está apenas no que será anunciado, mas principalmente em como as medidas serão executadas e de onde virão os recursos para financiá-las, em meio às discussões sobre o ajuste fiscal. De acordo com ele, a forma como essas questões serão endereçadas deve influenciar a disposição dos investidores e a composição das carteiras para o início de 2027. Investidor estrangeiro ainda está no Brasil Apesar da cautela com o cenário doméstico, o estrategista avalia que o investidor estrangeiro não abandonou o mercado brasileiro. Na visão de Figueredo, o país continua relevante na dinâmica global, especialmente por reunir recursos e setores estratégicos que estão no centro das discussões internacionais. “O Brasil tem os grandes temas que são discutidos globalmente, como terras raras, segurança alimentar, petróleo e energia”, afirmou. “Tudo isso a gente, literalmente, tem para dar e vender. Essa é uma das razões pelas quais acredito que o investidor gringo não vai embora, embora ele possa até diminuir um pouco a posição”, acrescentou. Apesar disso, o estrategista reconheceu que o risco está em uma eventual mudança da percepção. A avaliação é de que caso o gringo também se frustre com os rumos do Brasil e decida desmontar suas posições, o mercado pode ter dificuldades para sustentar os preços atuais. “O nosso problema agora, o risco, é se o gringo também se frustrar. Se ele vender a posição, basicamente não tem ninguém para sustentar esses preços nos níveis que estão agora”, disse.
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