A ala do PT contrária a medidas de ajuste fiscal já começou a manifestar preocupação, internamente, com a possibilidade do governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), assumir o Ministério da Fazenda. A percepção de lideranças dessa corrente é de que Fonteles teria um perfil "fiscalista" mais acentuado que o do ex-ministro Fernando Haddad, e dessa forma, poderia frear investimentos e gastos sociais. : "Ele é muito pior do que o Haddad", comentou um parlamentar do PT, em reação às notícias de que Fonteles poderia renunciar ao segundo mandato para assumir o Ministério da Fazenda. Fonteles se inspirou no arcabouço fiscal implantado por Haddad para instituir uma regra semelhante de controle de gastos no Piauí. Em meio aos rumores de que poderia ser indicado pelo presidente reeleito Luiz Inácio Lula da Silva para o cargo, Fonteles negou a hipótese em entrevistas recentes. No entanto, tem se pronunciado sobre a política econômica no quarto mandato. Ele nega que tenha tratado do tema com Lula, mas sustenta que o petista pretende conciliar ganhos sociais e crescimento econômico com responsabilidade fiscal. Na quarta-feira (27), o ministro da Secretaria de Relações Institucionais (SRI), José Guimarães, ampliou a preocupação do mercado financeiro ao afirmar que uma proposta de ajuste fiscal não estaria no radar de Lula. "Esse assunto não foi discutido, e nem está sendo discutido, e muito menos aqui na bancada", declarou. No dia seguinte ao resultado da eleição, a reação negativa da bolsa de valores obrigou o acionamento do circuit breake, e levou à queda de 13,88% do Ibovespa, a maior desde 2020. É conhecida a resistência do PT a medidas do Ministério da Fazenda para conter o aumento das despesas e buscar o equilíbrio das contas públicas. Em 2023, quando Fernando Haddad apresentou o modelo do arcabouço fiscal para substituir o teto de gastos do ex-presidente Michel Temer (MDB), a então presidente do PT, Gleisi Hoffmann, declarou que a proposta poderia inibir o crescimento econômico. O deputado Linbergh Farias (PT-RJ) argumentou que o arcabouço era "desastroso", porque desconsiderava o cenário de baixo crescimento. No balanço de 100 dias do governo, Lula saiu em defesa de Haddad, dizendo que o país colheria os frutos da proposta. Em 2015, o então ministro da Fazenda, Joaquim Levy, conhecido como "mãos de tesoura", foi escolhido pela presidente Dilma Rousseff (PT) para implantar um plano de austeridade, alcançar um superávit de 1,2% do PIB e reequilibrar as contas públicas. Contudo, ele sofreu pressão contrária do PT durante todo o mandato. Num cenário adverso, de queda da arrecadação e recessão da economia, ele não cumpriu seus objetivos e deixou o cargo em 18 de dezembro, antes de completar um ano na pasta. O modelo aprovado em 2025 por Fonteles no Piauí visa conter o crescimento das despesas estaduais por 10 anos, em meio ao crescimento do déficit primário. O formato semelhante ao do arcabouço federal prevê que as despesas poderão ser corrigidas pela inflação, acrescidas de no máximo 2,5% do ganho real; ou por 70% do crescimento nominal da receita corrente líquida, prevalecendo o menor dos dois critérios. Gastos com saúde, educação e precatórios foram excluídos da regra.
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