Há cerca de três décadas, quando a internet comercial ainda dava seus primeiros passos no Brasil, Dorian Lacerda estava entre os empresários que tentavam entender como aquela nova tecnologia transformaria empresas, mercados e a própria sociedade. Em 1995, criou em Campinas a DGLNet, um dos primeiros provedores comerciais de acesso à internet do país. No ano seguinte, participou da criação da Associação Brasileira de Internet, a Abranet, entidade que nasceu em meio à formação de um mercado que ainda não tinha regras, modelos consolidados ou dimensão clara de onde poderia chegar. Trinta anos depois, Lacerda voltou ao ambiente da Abranet no Futurecom para discutir outra mudança tecnológica que considera ainda mais profunda. No dia 7 de outubro, durante a Futurecom 2026, em São Paulo, o empresário apresentou no estande da associação o pré-lançamento de Inteligência Conectada, livro no qual analisa como empresas podem incorporar inteligência artificial aos seus processos sem transferir para a tecnologia aquilo que continua sendo responsabilidade da liderança. O encontro tem um simbolismo particular na trajetória do executivo. Se na década de 1990 o desafio era conectar empresas e pessoas à internet, agora a discussão está em como conectar inteligência humana, conhecimento organizacional, dados e sistemas de inteligência artificial para melhorar decisões. "A IA pode calcular probabilidades e ampliar possibilidades. O ser humano continua responsável por decidir quais delas devem se tornar realidade", escreve Lacerda na obra. A discussão se dirige especialmente a empresários, executivos e conselhos de administração que passaram a enfrentar uma nova categoria de decisão: não apenas onde utilizar inteligência artificial, mas até onde permitir que sistemas automatizados influenciem decisões, quais limites estabelecer, como supervisionar seus resultados e, principalmente, quem responde quando uma decisão apoiada por IA produz consequências indesejadas. IA chega à mesa da alta liderança A discussão ocorre em um momento em que a inteligência artificial deixa de ser tratada apenas como tema de tecnologia e passa a fazer parte da agenda estratégica das empresas. Levantamento da Thoughtworks divulgado em outubro de 2026 aponta que 39,8% das empresas brasileiras pesquisadas identificam o CEO como principal influenciador das decisões relacionadas à inteligência artificial, ante 23,1% na média global. O movimento também aparece nos indicadores de adoção. Segundo a Pesquisa de Inovação Semestral do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o percentual de empresas industriais brasileiras com 100 ou mais pessoas ocupadas que utilizam inteligência artificial passou de 16,9% em 2022 para 41,9% em 2024. Ao mesmo tempo em que a adoção cresce, aumenta a pressão sobre a capacidade das organizações de preparar pessoas para trabalhar nesse novo ambiente. O Fórum Econômico Mundial estima que 39% das competências consideradas essenciais no trabalho deverão mudar até 2030. Para Lacerda, é justamente nessa distância entre disponibilizar tecnologia e desenvolver capacidade organizacional que muitas empresas podem encontrar dificuldades. "Incorporar uma ferramenta de IA não torna, por si só, uma organização inteligente", afirma no livro. A tese de Inteligência Conectada é que o ganho estratégico da inteligência artificial não está apenas na capacidade de produzir conteúdos, analisar dados ou automatizar tarefas. Ele aparece quando a tecnologia passa a fazer parte de um sistema que combina informação, memória organizacional, conhecimento das pessoas, execução e critérios de decisão. "A nova fronteira não está em tornar cada inteligência mais poderosa isoladamente. Está em fazer com que elas consigam perceber, decidir, agir e aprender como partes de um mesmo sistema", escreve. De provedor de internet a educação e inteligência artificial A própria trajetória empresarial de Lacerda acompanha diferentes ciclos dessa transformação tecnológica. Depois da experiência com a DGLNet, sua atuação passou por negócios relacionados a conectividade, comunicação e tecnologia até chegar à atual Inspand, grupo de educação corporativa que acumula mais de 31 anos de trajetória e do qual Lacerda é fundador e presidente do Conselho. Hoje, a companhia atua em educação corporativa, desenvolvimento de lideranças e tecnologia para aprendizagem, entre outras frentes, e mantém o Neolude, seu ecossistema de aprendizagem, além de iniciativas relacionadas à aplicação de inteligência artificial. Lacerda também é fundador e CEO da NEXTCIA, empresa voltada ao conceito de Inteligência Conectada, com aplicação de inteligência humana, dados e IA no apoio a decisões de executivos, conselhos e organizações. Esse histórico ajuda a explicar o argumento central do livro. Para o empresário, diferentes ciclos tecnológicos mudam as ferramentas disponíveis, mas não eliminam a necessidade de liderança, julgamento e responsabilidade. Na internet dos anos 1990, empresas precisaram aprender o que significava estar conectadas. Na atual onda de inteligência artificial, o desafio pode ser mais complexo: aprender o que deve ser automatizado e o que não deve ser delegado. O livro também aborda a necessidade de as organizações construírem mecanismos para aprender com as próprias decisões, preservar conhecimento e adaptar estruturas e funções à medida que sistemas de IA ganham espaço no ambiente corporativo. Nesse cenário, o papel da liderança ultrapassa o patrocínio de projetos tecnológicos. Passa por definir objetivos, estabelecer critérios de governança, preparar profissionais para utilizar novas ferramentas e determinar os limites da autonomia que será concedida aos sistemas. Na conclusão da obra, Lacerda sintetiza sua visão sobre essa relação: "A tecnologia amplia caminhos; são os humanos que escolhem quais merecem ser percorridos." Três décadas depois de participar da expansão de uma tecnologia que mudaria a maneira como o mundo se conecta, Lacerda volta sua atenção para uma nova transição. Desta vez, segundo ele, a questão não é simplesmente conectar máquinas ou pessoas. É decidir como diferentes formas de inteligência poderão trabalhar juntas sem que as organizações abram mão daquilo que não pode ser automatizado: responsabilidade, contexto e capacidade de escolha.
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