Super El Niño invade calls de resultados de empresas

Na teleconferência de resultados do primeiro trimestre do Banco do Brasil, em maio, houve duas menções ao “El Niño”. O termo apareceu em meio a perguntas de analistas sobre o risco da carteira de crédito da agropecuária. Três meses depois, na call do segundo trimestre, foram 14 menções. A própria CEO do banco, Tarciana Medeiros, abordou o tema. A virada no BB resume o que aconteceu com as empresas listadas na bolsa brasileira. Em 2026, o termo apareceu em 56 teleconferências de resultados e reuniões com investidores, segundo dados da AlphaSense, plataforma de inteligência de mercado, levantados a pedido do Reset. O volume é recorde da série histórica, iniciada em 2016, e superior ao registrado em todo o ano de 2023 (44) e de 2024 (33), quando o país viveu seu último El Niño. Entre 2016 e 2022, o número nunca passou de cinco por ano. A busca considerou apenas o termo “El Niño”, sem sinônimos, até o dia 22 de setembro. O gatilho é a severidade do fenômeno. Agências meteorológicas apontam 95% de chance de o El Niño atingir intensidade muito forte entre outubro e dezembro, ou seja, que as águas superficiais do Pacífico equatorial aqueçam 2°C ou mais acima da média — por isso chamado de Super El Niño. Na prática, isso significa seca no Centro-Norte, onde estão o Matopiba e as hidrovias da Amazônia, e chuvas acima da média no Sul. Os El Niños mais intensos já registrados foram os de 1982/83, 1997/98 e 2015/16. Os setores que serão mais impactados são o agronegócio e a infraestrutura. As 56 menções ao El Niño foram feitas nas teleconferências de 35 companhias. Dessas, 11 são do agro e de alimentos, 9 são companhias elétricas e 5 são bancos e seguradoras. Logística, celulose e consumo somam três empresas cada, e o saneamento, uma. Quem puxa o assunto Como o tema chega às calls — trazido pela própria companhia ou apenas por meio de pergunta dos analistas — dá indícios sobre o seu tratamento pelas empresas, assim como o grau de maturidade das medidas para mitigar seus impactos. Entre as companhias de energia elétrica, sucroalcooleiras e seguradoras, o tema foi abordado pelos próprios executivos, em alguns casos com slides dedicados na apresentação de resultados, como fizeram Copel e Axia. Em bancos, varejo, agro e alimentos, o El Niño quase sempre chegou pela pergunta de um analista. E aqui um nome se repete. Antonio Ruette, analista do Bank of America (BofA), perguntou sobre o fenômeno em calls do BB, do Banrisul e da BB Seguridade. Em maio, ele assinou um relatório mostrando que o El Niño afeta o setor financeiro e o agronegócio brasileiro por meio de um efeito em cadeia que se inicia no campo, com quebras de safra, e se desdobra em maior risco de crédito para bancos e de pedidos de indenização (sinistralidade) para seguradoras. No campo, o El Niño deve agravar um contexto já difícil: a menor produtividade, combinada com custos elevados de insumos (como fertilizantes), reduz severamente a margem bruta dos produtores rurais. A queda nas margens aliada à alavancagem elevada e a juros altos dificulta o pagamento das dívidas, elevando a necessidade de renegociações e os índices de inadimplência no setor rural. O BofA avaliou que BB e Banrisul são os dois bancos entre os mais expostos ao El Niño, uma vez que o crédito rural representava, no fim de 2025, quase um terço da carteira do BB e 21% da do Banrisul. Por isso, a recomendação para as ações de ambos era de “desempenho abaixo da média” (equivalente à recomendação de venda) para ambos. Na call de resultados do segundo trimestre, Gilson Bittencourt, vice-presidente de agronegócios e agricultura familiar do BB, disse que equipes do banco acompanham as condições climáticas em tempo real e incentivam a contratação de seguro e o investimento em irrigação pelos clientes. Mas relativizou o impacto do fenômeno na produção do país: “Quando a gente olha o histórico dos últimos 20 anos, quando tem um El Niño, a perda efetiva em termos de produção do país é muito pequena”, afirmou. Nos dois últimos episódios fortes do fenômeno, a produção total da safra de grãos caiu 10,3% (2015/16) e cerca de 6% (2023/24), segundo a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab). No Banrisul, a resposta foi menos técnica. “O agricultor está sempre pensando que Deus vai ajudar. Às vezes Deus ajuda, mas também às vezes ele esquece”, disse o vice-presidente financeiro, Luiz Gonzaga Veras Mota, na teleconferência do primeiro trimestre. A carteira de crédito da instituição é concentrada no Rio Grande do Sul, estado que foi devastado por enchentes em 2024 — o El Niño daquele ano teve relação com o desastre, mas não foi a única causa. Para a BB Seguridade, o que vai definir o tamanho do problema no agro é a chuva entre setembro e novembro, quando a soja é plantada. Se ela atrasar o plantio, o milho safrinha de 2027 vai a campo mais tarde e fica mais exposto a seca e geada. Do campo ao mercado O El Niño afeta principalmente os setores econômicos que dependem do clima, seja diretamente, como a agropecuária, seja indiretamente, por meio dos preços da energia, dos alimentos e dos custos logísticos. No Brasil, os impactos variam conforme a região, a intensidade do fenômeno e a época do ano. As chuvas excessivas no Sul e o clima mais quente e seco no Centro-Oeste podem reduzir a produtividade do milho e da soja, culturas que juntas somam 85% da produção de grãos do país. SLC e BrasilAgro detalharam manejo, irrigação e exclusão de áreas de risco, e nos alimentos, o fenômeno aparece mais como fator de preço (grãos, trigo, oferta global de carne e açúcar). As sucroenergéticas relatam excesso de chuva atrapalhando a moagem e a qualidade da cana. Aqui, o efeito já está no resultado: Raízen e São Martinho relataram moagem e produtividade afetadas no interior de São Paulo. Já a Jalles, com usinas em Goiás e Minas Gerais, vê no fenômeno um possível suporte ao preço do açúcar, caso as chuvas tirem dias de moagem das concorrentes com canaviais paulistas e no Paraná. Outra cadeia do agro afetada é a da logística. Aqui, o risco está nos rios da Amazônia, por onde a Hidrovias do Brasil escoa grãos. Com menos chuva no Norte, o nível dos rios cai e as barcaças precisam navegar com menos carga ou parar, como nas secas de 2023 e 2024. Para evitar isso, a empresa apostava numa dragagem emergencial no Tapajós. A obra, porém, não avançou. Produção em queda e custos em alta, o resultado esperado é de alta de preços. O Assaí espera que o fenômeno encareça os alimentos e diz que consegue repassar a alta ao consumidor. A Ambev acompanha os efeitos no custo de commodities e frete — e tratou com cautela a ideia de que o calor vai vender mais cerveja. O balanço dos impactos do Super El Niño em outros países também entra na conta. A SLC e o frigorífico Minerva contam com a seca que deve afetar a Austrália para sustentar os preços do algodão e da carne bovina. Na celulose, a Suzano vê o fenômeno ajudando a apertar a oferta global, com secas e tempestades em regiões produtoras na Ásia diminuindo o mercado. Infraestrutura As empresas elétricas apresentaram um maior detalhamento de seus planos. A mudança no regime de chuvas pode reduzir os níveis dos reservatórios de hidrelétricas, em regiões afetadas pela seca, e provocar danos à infraestrutura, em lugares com chuvas intensas. As empresas do setor abordam a preparação para o El Niño em duas frentes integradas: resiliência operacional de infraestrutura (nas redes de distribuição, geração e transmissão) e gestão comercial e financeira para mitigar a volatilidade de preços causada pelas assimetrias climáticas regionais. As distribuidoras concentraram ações na antecipação de manutenção e ampliação da capacidade de resposta, o que se refletiu nos gastos operacionais e investimentos (capex). No saneamento, a Sanepar se prepara para o excesso de chuva no Paraná, que arrasta sedimentos para os mananciais e deixa a água mais turva e difícil de tratar. A empresa investe em tecnologia para tratar essa água e deixou geradores e bombas de prontidão para alagamentos e quedas de energia. A próxima temporada de balanços das empresas começa no fim de outubro, quando se espera que os impactos do Super El Niño devam se intensificar. Os investidores, mais do que nunca, terão que acompanhar as previsões meteorológicas e hidrológicas para manejar suas carteiras. O post Super El Niño invade calls de resultados de empresas apareceu primeiro em Reset.

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