‘O mundo se mostra mais resiliente do que acreditávamos’, diz economista-chefe global do Santander

A economia mundial tem demonstrado maior resiliência do que o esperado diante dos choques dos últimos anos, mas enfrenta um cenário de crescimento mais lento e menor espaço para reagir a novas crises. A avaliação é do economista-chefe global do Santander, Juan Cerruti, feita a jornalistas, durante o XXII Encontro Santander América Latina. Segundo Cerruti, a pandemia, os conflitos geopolíticos e a guerra tarifária aceleraram as mudanças na economia mundial. Enquanto a globalização tinha como principal referência a eficiência, com a produção concentrada nos locais de menor custo, o novo paradigma prioriza também a segurança do abastecimento de itens considerados essenciais, como energia e alimentos, além da segurança nacional. O economista ressaltou que, diante dos principais choques recentes, as projeções dos analistas foram mais pessimistas do que o desempenho efetivamente observado. “O mundo se mostra mais resiliente do que acreditávamos inicialmente. ... O consenso dos economistas errou para baixo.” No entanto, o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) global perdeu ritmo. Nas duas primeiras décadas deste século, avançou, em média, 3,7% ao ano, e a expectativa do Santander para os próximos anos é de expansão entre 3,1% e 3,3%. “Meio ponto do PIB em dez anos equivale a consumirmos ou a apagarmos o PIB combinado da Alemanha e do Japão. Ou seja, meio ponto do PIB representa muita coisa. Portanto, um dos desafios consiste em reaver o ritmo de aceleração do crescimento.” Outro problema, segundo o economista, é a redução dos instrumentos disponíveis para enfrentar novos choques. O endividamento público global está, em média, dez pontos percentuais do PIB acima do nível anterior à pandemia, enquanto a inflação nas economias desenvolvidas é o dobro do patamar pré-pandemia. “O mundo mostra-se mais resiliente do que julgávamos, mas cresce menos e dispõe de menos colchões.” Ao analisar as principais economias, Cerruti destacou a força do crescimento dos Estados Unidos, impulsionado pelos investimentos ligados ao ecossistema de inteligência artificial (IA), como data centers. O desafio americano, segundo ele, será conter a inflação e fazer com que ela volte a convergir para a meta do Federal Reserve (Fed), de 2% ao ano, movimento que o Santander espera que ocorra a partir de 2027. Na zona do euro, a expectativa é de aceleração do crescimento no próximo ano, puxada pela recuperação de economias centrais, como a Alemanha, e por investimentos em infraestrutura. Já a Espanha deve crescer cerca de 2,6% neste ano e desacelerar para 2,2% em 2027, mas ainda acima da média da região. Ao falar sobre a América Latina, Cerruti afirmou que a atividade econômica do Uruguai perdeu dinamismo nos últimos meses, mas avaliou que o país mantém instituições sólidas e fundamentos macroeconômicos relativamente robustos. O Santander projeta crescimento de cerca de 1% na região neste ano, com aceleração para 1,5% em 2027. Para sustentar uma expansão mais forte no longo prazo, ele apontou a necessidade de avanços em produtividade e investimento, além do cumprimento das metas fiscais. Sobre a Argentina, Cristian Cancela, economista do Santander Argentina, avaliou que o país atravessa uma transformação estrutural, sustentada pelo equilíbrio fiscal, pela recomposição das reservas internacionais e pelo processo de desinflação. Segundo ele, a melhora dos fundamentos macroeconômicos representa uma proteção diante de um ambiente internacional mais desafiador. No Chile, Fernando Larraín, economista do Santander no país, afirmou que a economia deverá ficar estagnada em 2026, depois de as expectativas iniciais apontarem para um crescimento de até 2,6%. Entre os fatores que explicam a piora estão os efeitos climáticos sobre a pesca, a queda da produção mineral e a alta dos combustíveis. Para 2027, porém, a perspectiva é mais favorável: o Santander projeta expansão de 3,5%, impulsionada pelos investimentos em mineração, energia e infraestrutura. Já no México, o economista do Santander México Alonso Cervera projetou crescimento próximo de 2% em 2026, acima do 0,6% registrado no ano anterior. A recuperação tem sido sustentada pelas exportações e pelo investimento público, enquanto o investimento privado permanece relativamente estagnado e o consumo apresenta dinamismo moderado. *A jornalista viajou a convite do Santander

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