A diplomata Lana Nusseibeh, ex-embaixadora dos Emirados Árabes Unidos na Organização das Nações Unidas (ONU), surgiu como uma possível candidata de última hora ao cargo de secretária-geral da entidade, em uma disputa marcada por impasses entre as grandes potências e pela dificuldade dos principais concorrentes em reunir o apoio necessário para suceder António Guterres. Segundo diplomatas ouvidos pelo jornal Financial Times (FT), apoiadores de Nusseibeh começaram a sondar missões diplomáticas na ONU para avaliar a receptividade a uma eventual candidatura sua. A expectativa entre pessoas próximas à organização é que ela, que hoje atua como ministra de Estado do Ministério das Relações Exteriores dos Emirados Árabes Unidos, possa formalizar sua entrada na disputa ainda nesta semana. A movimentação a favor de Nusseibeh ocorre em um momento decisivo para a escolha do próximo secretário-geral, que assumirá o comando da ONU em janeiro de 2027. Guterres, que atualmente ocupa o cargo cobiçado, deixará a função no fim deste ano, após dois mandatos de cinco anos marcados pela pandemia de covid-19 e por guerras no Oriente Médio e na Ucrânia. Seu sucessor herdará uma instituição pressionada por uma grave crise financeira e por questionamentos sobre sua relevância em um cenário de grandes crises globais. Os EUA, que é tradicionalmente o maior financiador da ONU, defendem cortes radicais em suas despesas, enquanto as divisões entre as potências dificultam a atuação do Conselho de Segurança. A possível candidatura de Nusseibeh é lida como uma nova variável na disputa que, até agora, tem como favorita a costarriquenha Rebeca Grynspan, ex-vice-presidente de seu país e atual chefe da Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento (Unctad). Na semana passada, durante a mais recente votação informal do Conselho de Segurança, Grynspan recebeu nove votos favoráveis, número que seria suficiente para assegurar sua escolha em uma votação definitiva. A candidata, porém, também recebeu dois votos contrários de integrantes permanentes do órgão, que têm poder de veto. O resultado evidencia a principal dificuldade enfrentada pelos concorrentes: conquistar não apenas uma maioria no Conselho, mas também evitar a oposição de qualquer um dos cinco membros permanentes, que incluem EUA, China, Rússia, França e Reino Unido. O segundo colocado na disputa, Rafael Grossi, diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA), também recebeu dois votos contrários de países com poder de veto. Nusseibeh é vista como uma figura de grande projeção internacional, mas também como uma candidata controversa, de acordo com relatos de diplomatas ouvidos pelo FT. A representante dos Emirados Árabes Unidos construiu uma trajetória de destaque na ONU durante os 11 anos em que atuou como embaixadora do país, entre 2013 e 2024, defendendo as posições de Abu Dhabi em um momento de crescente protagonismo dos Emirados na política internacional. A proximidade dos Emirados com o governo do presidente americano, Donald Trump, poderia favorecer sua candidatura. Por outro lado, a diplomata enfrentaria questionamentos sobre o envolvimento de seu país em conflitos internacionais, especialmente no Sudão. Os Emirados têm sido alvo de críticas por seu apoio às Forças de Apoio Rápido (RSF), grupo paramilitar acusado de cometer atrocidades durante a guerra civil sudanesa. Abu Dhabi, entretanto, nega fornecer armas às facções envolvidas no conflito. Outro fator de incerteza é a posição da Arábia Saudita, principal potência do Golfo. Alguns analistas regionais que falaram ao FT, porém, consideram improvável uma oposição saudita, uma vez que Riad busca superar divergências com Abu Dhabi sobre o Iêmen, em meio a ataques dos rebeldes houthis apoiados pelo Irã. A eventual entrada de Nusseibeh também contraria um entendimento informal na Assembleia Geral da ONU de que seria a vez da América Latina de ocupar o cargo. Havia, além disso, a expectativa de que uma mulher assumisse pela primeira vez a liderança da organização, após nove secretários-gerais homens. Embaixadores durante a votação de uma resolução no Conselho de Segurança da ONU Bebeto Matthews/AP
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