A agropecuária e a mudança do uso da terra (leia-se: desmatamento) respondem por cerca de 70% das emissões de gases de efeito estufa brasileiras. Parece óbvio, portanto, que esta deveria ser a atividade econômica prioritária para incentivos à descarbonização. Mas o agro brasileiro captou menos de 0,1% dos US$ 9 trilhões em dívida sustentável emitidos no mundo — cerca de US$ 6 bilhões, concentrados em poucas grandes empresas. É essa distância que o EcoA (Agregador de Ativos de Crédito Sustentável) quer encurtar. Apoiada pelo Instituto Clima e Sociedade (iCS), a proposta é mobilizar capital privado em larga escala para os planos de mitigação climática do Brasil. O mecanismo foi desenhado por dois economistas: Winston Fritsch, ex-secretário de política econômica da Fazenda, e Julieda Puig, ex-chefe global de compliance ESG do HSBC, ambos colunistas do Reset. O desenho teve validação conceitual de representantes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES); do BID Invest, braço de investimento privado do Banco Interamericano de Desenvolvimento; e do Banco do Brasil, líder no financiamento do agro. A próxima etapa é de detalhamento técnico, financeiro, jurídico, operacional e de governança do mecanismo. Ou seja: fazer testes de risco e confirmar se o mecanismo para de pé. A meta é lançar o fundo no fim de 2027, com captação inicial de US$ 2 bilhões. Se funcionar no agro, o modelo deve ser replicado para energia e indústria. O diagnóstico dos autores é que não faltam capital nem projetos. “O investidor global, especialmente o europeu, tem mandato para investir em sustentabilidade, mas precisa achar pipeline de projetos estruturado para os seus padrões. E o Brasil continua fora desse mapa”, diz Puig. Os economistas identificaram três barreiras ao financiamento climático no Brasil: fragmentação na originação dos ativos, ausência de padrões que o investidor estrangeiro reconheça e custos e prazos inadequados. A avaliação é de que as três se reforçam e não podem ser resolvidas de forma isolada: tratar a escala sem padrão para investimentos sustentáveis (frameworks) compromete a credibilidade; aplicar frameworks sem resolver as condições de crédito não atrai capital. Como funciona Para solucionar essa equação simultaneamente, o EcoA vai operar como uma infraestrutura de mercado e uma plataforma integrada (one-stop shop) que conecta os produtores rurais e intermediários financeiros locais aos mercados globais de capital. Os projetos sustentáveis e a originação do crédito estão dispersos entre milhares de produtores, cooperativas e instituições financeiras regionais. Para investidores institucionais globais, essa dispersão resulta em operações de ticket pequeno, altos custos de transação e de auditoria e dificuldades para avaliar o risco. “É mais fácil o investidor atravessar o oceano para investir US$ 100 milhões do que US$ 10 milhões”, resume Puig. A solução é a agregação. O EcoA se propõe a padronizar empréstimos dispersos (de bancos, cooperativas e emissões de dívidas de produtores) e os reunir sob a forma de carteiras diversificadas. Elas serão vendidas a um fundo de crédito, batizado de Fundo EcoA Agro (FEAgro), que pode ser constituído como um FIDC (fundo de investimento em direitos creditórios) no Brasil ou um veículo no exterior. A proposta é que ele compre tanto carteiras já originadas, liberando espaço no balanço dos bancos, quanto créditos novos. No FEAgro, a estrutura de capital se baseia no modelo de blended finance (capital misto) e contará com uma cota subordinada e três sêniores. A subordinada será destinada a “patrocinadores” (sponsors) e absorverá as primeiras perdas, em troca de remuneração maior. “É quase um equity, um investidor âncora”, explica Fritsch. A ideia é que esses patrocinadores sejam corporações da cadeia do agro, tradings e fundos soberanos de países preocupados com segurança alimentar. Cada uma das três cotas sêniores terá um papel específico na captação de recursos e no gerenciamento de riscos. A primeira é destinada a grandes investidores institucionais domésticos e internacionais, como fundos de pensão, seguradoras e gestoras de recursos. É a maior cota do fundo em volume financeiro e foi desenhada para alcançar rating AAA, amparada pelas proteções fornecidas pelas demais cotas e pelas garantias do fundo. Ela terá recebimento preferencial em caso de inadimplência da carteira. A segunda cota sênior é destinada ao BNDES, com aporte de recursos públicos e subsidiados do Fundo Clima. A terceira cota sênior é voltada para bancos multilaterais e de desenvolvimento internacionais, cujos recursos vão entrar no fundo por meio da emissão de um título, o Sustainability-Linked Loan-Financing Bond (SLLB). Para reduzir o risco percebido de greenwashing no mercado internacional, o SLLB exige rigorosas metas de sustentabilidade (SPTs), indicadores (KPIs) e verificação externa por meio de parecer independente (SPO). A emissão vai seguir um padrão a ser criado pelo EcoA para traduzir as práticas da agricultura tropical brasileira para os referenciais internacionais da International Capital Market Association (ICMA) e da Loan Market Association (LMA). “A agricultura tropical é muito pouco entendida lá fora”, diz Puig. Os critérios de elegibilidade e de exclusão do fundo ainda serão definidos. Por que começar pelo agro O EcoA foi pensado para financiar qualquer um dos planos setoriais do Plano Clima. A meta brasileira apresentadas à ONU (chamadas de NDC) representa o objetivo de redução total das emissões de gases de efeito estufa, englobando toda a economia. O plano divide as responsabilidades por setor, e a divisão proposta inicialmente colocou o agronegócio em pé de guerra com o governo. A escolha do agro como piloto veio justamente da leitura de que o Plano Clima chegou como cobrança, sem contrapartidas de financiamento, incentivos ou condições para custear a alteração na estrutura produtiva do agro. “Logo após o lançamento do plano, a primeira crítica pública relevante veio de Roberto Rodrigues ex-ministro da Agricultura, uma liderança do agro amplamente reconhecida e moderada. O chiado dele indicava que havia algo errado na forma como a política climática estava sendo imposta”, diz Fritsch. A proposta do EcoA foi apresentada ao ex-ministro e ao deputado federal Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), vice-presidente da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA), e foi bem recebida. Na sua gestão, Rodrigues criou instrumentos como a LCA (Letra de Crédito do Agronegócio) para “tornar o financiamento do agro independente do governo” e vê no fundo uma resposta aos desafios de financiamento da transição. “Faltam padronização e métricas, que o fundo pretende resolver”, diz Rodrigues. O ex-ministro aponta que propostas de engenharia financeira que mobilizam grandes volumes de capital — especialmente vindos do exterior — geram receio no produtor tradicional. “O produtor é conservador e desconfiado. A percepção é de que é ‘coisa para gigante’”, diz. Para superar esse bloqueio cultural e garantir que o crédito atinja os pequenos e médios produtores, Rodrigues argumenta que o EcoA precisa ser levado ao campo por meio das cooperativas de crédito (como Sicredi e Sicoob) e bancos cooperativos. Como o produtor já confia no sistema cooperativo, a intermediação servirá como uma ponte de credibilidade para destravar o financiamento. Riscos A proposta chega em um momento complexo no campo, com produtividade ameaçada por mudanças climáticas, custos elevados de insumo, alto endividamento e Selic de dois dígitos. O resultado é um alto índice de inadimplência no setor, com um número elevado de pedidos de recuperação judicial. Fritsch enfatiza que o FEAgro não foi desenhado como um plano de resgate ou “salvação da lavoura” para socorrer empresas quebradas no curto prazo. Ele foi projetado para operar “em tempos normais”. Mas admite que pode funcionar como solução para produtores e instituições financeiras que possuem bons ativos mas enfrentam sufoco de liquidez devido aos juros altos. “Para esses, o fundo funciona como um canal de alívio”, diz Fritsch. Há também o risco político, já que a cota do BNDES depende da orientação do governo federal. Com a eleição presidencial e a possibilidade de mudança de governo, a continuidade do apoio do banco de desenvolvimento à ideia não está garantida. 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