Ostentação, edifício 'The Matrix' e obras de arte: os sinais de que algo estava errado com o ueno bank

Representantes do braço de investimentos do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) suspeitaram que algo estava errado quase no momento em que entraram nas instalações do ueno bank, no Paraguai. O elegante edifício de escritórios em Assunção, apelidado de “The Matrix”, estava superlotado de funcionários jovens. Os painéis de vidro, a madeira polida e as obras de arte sofisticadas pareciam mais adequados a uma startup com muito capital do que a uma instituição que atendia a algumas das populações mais pobres do país. Os executivos do banco ofereciam almoços em uma sala privativa, com direito a chefs e mordomos — algo visto como um excesso ostensivo pelos funcionários do BID, acostumados a um ambiente menos pomposo. O BID Invest avaliava a possibilidade de adquirir uma participação acionária no ueno, mas a visita realizada em 2025 acendeu diversos sinais de alerta, segundo pessoas a par do ocorrido que pediram para não serem identificadas, por não estarem autorizadas a falar com a imprensa. Um porta-voz do BID Invest preferiu não comentar. Quinze meses depois, o rápido colapso do banco reverbera na política e no meio empresarial do país, além de afetar a vida de correntistas comuns, que, ao acordarem esta semana, descobriram que não conseguiam acessar suas contas. O acionista controlador, Miguel Vázquez — um dos homens mais ricos do Paraguai —, está preso. O presidente Santiago Peña, que anteriormente foi investidor na empresa controladora do banco, colocou seu cargo à disposição sob a ameaça de um processo de impeachment. O então presidente do Banco Central do Paraguai, Carlos Carvallo, que trabalhou anteriormente no ueno, renunciou. Agora, as ruas estão tomadas por manifestantes que exigem respostas sobre o que aconteceu e quem são os responsáveis. Até mesmo o BID Invest, que concedeu um empréstimo de quase US$ 20 milhões ao Ueno em 2024, não recebeu o reembolso integral, segundo as fontes mencionadas. O escândalo marca a rápida queda de Peña e representa mais um revés para os esforços do governo de Donald Trump em ampliar a influência dos EUA na América Latina. O secretário de Estado, Marco Rubio, havia apontado o Paraguai como um modelo para a região, destacando a lealdade de longa data do país a Taiwan, em um cenário marcado pela predominância de investimentos chineses. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, reuniu-se com Peña em Washington há apenas duas semanas. Há pouco mais de um mês, Peña assegurava à opinião pública que não havia motivos para preocupação em relação ao ueno, defendendo, na ocasião, a supervisão exercida pelo Banco Central. Foco no digital O ueno integrava a narrativa de sucesso do Paraguai: uma fintech de rápido crescimento, com foco no digital, que trazia ao sistema financeiro formal — pela primeira vez — pessoas que antes estavam excluídas, muitas delas em situação de pobreza. A empresa parecia fazer parte de uma onda de novas instituições financeiras na América Latina que desafiavam o sistema tradicional, permitindo que consumidores em ascensão econômica tivessem acesso ao crédito. Após a fusão com o Visión Banco em 2024 e uma busca agressiva por recursos públicos, o ueno tornou-se o sexto maior banco do Paraguai em volume de depósitos. Os depósitos do setor público cresceram expressivamente após a posse de Peña, em 2023, atingindo cerca de 5 trilhões de guaranis (US$ 869 milhões) — o equivalente a 29% do total de depósitos do banco — ao final de junho. Na madrugada de terça-feira, os órgãos reguladores intervieram no banco, declarando-o insolvente e subcapitalizado. Mais tarde, naquele mesmo dia, as autoridades realizaram uma operação de busca na residência de Vázquez em Assunção, um imóvel repleto de obras de arte. A polícia encontrou carros de luxo enfileirados na garagem dele — incluindo um Porsche, um Bentley e um Mercedes — que, segundo a mídia local, estão avaliados em mais de 1,4 milhão de dólares. Não está claro o que acontecerá com os fundos públicos após o fechamento do banco. O sistema de garantia de depósitos do Paraguai cobre valores de até US$ 38 mil; na quarta-feira, os legisladores aprovaram uma lei que determina ao Banco Central acelerar o pagamento dessa garantia aos correntistas que ficaram com o dinheiro retido na instituição. Segundo o próprio banco, mais de 1 milhão de paraguaios — em um país com pouco mais de 6 milhões de habitantes — abriram sua primeira conta bancária por meio do ueno. Até mesmo os jogadores da seleção paraguaia que disputaram a Copa do Mundo — heróis há poucos meses por terem derrotado a poderosa Alemanha — acabaram envolvidos nessa confusão, tentando recuperar o equivalente a milhões de dólares depositados no ueno, patrocinador oficial da equipe. A intervenção no banco ocorre dias após a mídia local noticiar que órgãos reguladores constataram que o ueno concedeu empréstimos a empresas ligadas ao Grupo Vázquez — holding controlada por Miguel Vázquez — que excediam em muito os limites legais e não estavam devidamente classificados. Já em 2025, a equipe do IDB Invest havia identificado problemas semelhantes envolvendo empréstimos entre empresas do mesmo grupo. Outros aspectos das operações do banco também acenderam um alerta para o IDB Invest. O ueno reportou uma taxa de inadimplência de apenas 2% — metade do patamar registrado por concorrentes mais experientes no mercado. O ueno bank passou a ser alvo de crescente escrutínio público no início de setembro, quando o jornal local ABC começou a publicar documentos internos do banco central e correspondências que apontavam preocupações quanto às suas práticas de concessão de crédito. A autoridade monetária abriu uma investigação formal sobre o ueno ainda naquele mês e, posteriormente, obrigou a instituição a revisar seus registros contábeis. Após as correções, o índice de solvência do banco caiu abaixo do mínimo exigido de 50%. Em março, o ueno bank vendeu US$ 350 milhões em títulos nos mercados internacionais de capitais, um recorde para a emissão de dívida corporativa no Paraguai. Na terça-feira, esses títulos eram negociados a 85 centavos de dólar. No fechamento do mercado, na quinta-feira, o preço estava abaixo de 10 centavos.

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