Açúcar deve perder força em 2027? BTG vê preços recuando a ‘patamar de equilíbrio’

O mercado global de açúcar deve enfrentar um período de oferta mais restrita nos próximos meses, mas a recuperação da produção brasileira em 2027 pode tirar força das cotações e levar os preços de volta a um patamar de equilíbrio. A avaliação é do BTG Pactual, em relatório assinado pelos analistas Thiago Duarte e Guilherme Guttilla. Para o banco, o nível de US$ 0,17 por libra-peso representa uma referência razoável para o equilíbrio do mercado, considerando os custos de produção brasileiros e a possibilidade de que preços mais baixos estimulem a demanda chinesa por importações. A avaliação contrasta com as cotações recentes, que se recuperaram para a faixa de US$ 0,20 a US$ 0,21 por libra-peso, após terem oscilado entre US$ 0,13 e US$ 0,16 anteriormente neste ano. A alta recente reflete, em parte, a piora nas perspectivas para o fluxo global de comércio de açúcar. Segundo estimativas da consultoria Datagro citadas pelo BTG, o mercado deve registrar déficits de 302 mil toneladas no quarto trimestre de 2026 e de 1,9 milhão de toneladas no primeiro trimestre de 2027. As projeções representam uma deterioração significativa em relação às estimativas de agosto. Na ocasião, a Datagro previa um superávit de 548 mil toneladas no quarto trimestre de 2026 e um déficit de 962 mil toneladas no primeiro trimestre de 2027. O fluxo comercial é um dos principais fatores para a formação dos preços no curto prazo, segundo a análise. Quando a disponibilidade de açúcar para exportação fica abaixo das necessidades de compra dos países importadores, os estoques precisam compensar a diferença, aumentando a disputa pelo produto e favorecendo as cotações. Chuvas no Brasil pressionam oferta no curto prazo O cenário pode ficar ainda mais apertado caso as condições climáticas continuem prejudicando a produção brasileira. As fortes chuvas no Centro-Sul têm dificultado as operações de colheita e moagem da cana-de-açúcar, além de reduzir a concentração de açúcar na matéria-prima. Como o Brasil é o maior exportador mundial de açúcar, eventuais interrupções nas operações das usinas podem restringir ainda mais a disponibilidade do produto no mercado internacional, em um momento de déficits projetados para os próximos trimestres. O BTG, contudo, avalia que esse aperto será temporário. A expectativa é que o fluxo global de comércio volte a registrar superávit no segundo trimestre de 2027, de 363 mil toneladas, e alcance 2,8 milhões de toneladas no terceiro trimestre do próximo ano, com a entrada da nova safra brasileira. A recomposição da oferta deve reduzir gradualmente a escassez que sustenta os preços atualmente. Nesse cenário, o banco vê espaço para as cotações recuarem em direção aos US$ 0,17 por libra-peso, nível considerado mais próximo do equilíbrio entre oferta e demanda. Preços elevados abrem janela para venda de usinas Além das perspectivas para as cotações, o BTG avalia que o ambiente mais favorável para as commodities pode criar oportunidades de venda de ativos no setor sucroenergético brasileiro. O preço médio das últimas cinco aquisições no segmento ficou em aproximadamente US$ 54 por tonelada de capacidade de moagem, cerca de 25% abaixo da média histórica de US$ 72 por tonelada. Os múltiplos mais baixos refletem não apenas períodos de preços menos favoráveis para o açúcar, mas também a concorrência crescente do etanol de milho, que vem pressionando estruturalmente a viabilidade econômica do biocombustível produzido a partir da cana. O cenário atual, porém, é mais favorável à rentabilidade das usinas no curto prazo. Além da recuperação do açúcar para a faixa de US$ 0,20 a US$ 0,21 por libra-peso, os preços do etanol também avançaram, sustentados pelos baixos estoques na região Centro-Sul. Apesar da melhora, o BTG ressalta que as perspectivas de longo prazo para o etanol de cana continuam pressionadas pelo crescimento da oferta de etanol de milho. Nesse contexto, a recuperação temporária das commodities pode representar uma oportunidade para empresas monetizarem ativos em condições mais favoráveis. Adecoagro reorganiza portfólio A movimentação recente da Adecoagro ilustra essa dinâmica. A companhia concordou em vender a usina Monte Alegre, em Minas Gerais, que tem capacidade de moagem de 1,2 milhão de toneladas de cana por ano. O valor da transação não foi divulgado. Com base no múltiplo médio de aproximadamente US$ 54 por tonelada de capacidade observado nas aquisições recentes, o BTG estima que o ativo poderia ser avaliado entre US$ 60 milhões e US$ 70 milhões, o equivalente a cerca de 5% do valor de mercado da companhia. A venda, contudo, não significa necessariamente uma redução da exposição da Adecoagro ao mercado de açúcar e etanol. Poucas semanas antes, a empresa havia concluído a aquisição da usina Caarapó, da Raízen (RAIZ4), juntamente com ativos agrícolas associados. Na avaliação do BTG, as duas operações sugerem uma estratégia de concentração regional em Mato Grosso do Sul, com o objetivo de capturar sinergias operacionais. O movimento ocorre em um momento de melhora dos preços das commodities, mas também de desafios estruturais para o setor sucroenergético. Para as companhias, a perspectiva de normalização das cotações do açúcar e a concorrência do etanol de milho reforçam a importância da eficiência operacional e da gestão estratégica dos ativos.

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