Foto: Motion Array Quando se fala das exportações de salmão do Chile, a conversa costuma começar pelos Estados Unidos e pelo Japão. Mas há um terceiro ator que ganha espaço ano após ano: o Brasil. Com uma demanda que segue em alta, o mercado brasileiro tornou-se o principal destino regional do salmão chileno e um dos pilares da indústria. Um destino de primeiro nível Em 2024, o salmão foi a principal exportação não mineral do Chile, com embarques de US$ 6.366 milhões, equivalentes a cerca de 6% das exportações do país. O Brasil comprou cerca de US$ 915 milhões, aproximadamente 14% do total, e posicionou-se como terceiro mercado, atrás dos Estados Unidos e do Japão. Em 2026, a tendência se reforçou. Entre janeiro e agosto, o Chile exportou ao Brasil 112.150 toneladas de salmão e truta por US$ 681 milhões, um aumento de 12,2% em volume e de 12,8% em valor em relação ao mesmo período de 2025. No primeiro semestre, o Brasil manteve o terceiro lugar entre os destinos, com US$ 520 milhões, atrás dos Estados Unidos (US$ 1.360 milhões) e do Japão (US$ 539 milhões). Receba no seu celular atualizações em tempo real, enquetes interativas e tudo o que impacta o dia a dia no campo: entre agora no Whatsapp do Canal Rural! Exportações de salmão e truta chilenos ao Brasil, 2022 a 2024 Fonte: Serviço Nacional de Alfândegas do Chile, via SalmonExpert e SalmonChile. Cifras de janeiro a dezembro. O salmão que chega ao Brasil é, quase em sua totalidade, chileno. Segundo a ProChile Brasil, com dados oficiais de comércio exterior (Comex Stat), o salmão e a truta do Chile representaram 99% do que o Brasil importou em 2022. Por que a demanda cresce O salmão deixou de ser um produto de ocasião para se instalar na mesa cotidiana dos consumidores brasileiros. Isso se percebe em vários fatos: Gastronomia japonesa. A tradição do sushi e do sashimi, com uma grande colônia japonesa em São Paulo, impulsionou o consumo de salmão. Essa cidade é o principal destino do produto. Sushi e poke. Segundo a Abrasel, o salmão representa 65% das porções da Let’s Poke e cerca de 75% do faturamento da Home Sushi Home. Preço. O preço do salmão ao consumidor caiu 4,18% no acumulado de 2025 até julho, segundo o IPCA, ante uma inflação geral de 3,26%. Formato fresco. O produto mais comprado pelo Brasil é o salmão do Atlântico fresco inteiro. Uma oferta confiável. O Chile é o segundo maior produtor mundial de salmão e truta, com cerca de 31% da produção global. O efeito se nota até dentro do Chile: na Região de Magalhães, os embarques do primeiro trimestre de 2026 subiram de 16 mil para 27 mil toneladas, impulsionados pela demanda do Brasil e dos Estados Unidos. Salmão e picanha: mais complemento do que concorrência A picanha é o símbolo da proteína animal no Brasil, e 2026 é um ano difícil para ela. O ciclo pecuário reduziu a oferta de animais: o quilo no atacado custou R$ 72,38 em junho (+10,8% em doze meses) e o IPCA-15 registrou alta de 10,66% no semestre. Um analista da Safras & Mercado adverte que não haverá picanha barata nem em 2026 nem em 2027, e que o efeito recai sobretudo sobre as famílias de menor renda. Na minha avaliação, o salmão e a picanha se complementam mais do que concorrem. A picanha é a carne do churrasco, da reunião em família e do domingo; o salmão é consumido sobretudo no sushi e no sashimi, em refeições mais leves. São ocasiões distintas, e uma mesma família pode usar ambos na semana. O salmão grelhado também pode se somar ao churrasco como opção para quem quer variedade. Além disso, os dois compartilham canais (supermercados, atacarejos, restaurantes) e o mesmo marco de inspeção sanitária do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) para produtos de origem animal. A concorrência existe apenas em uma margem restrita: o orçamento premium das famílias de renda média e alta, o da refeição especial de fim de semana. Quando a picanha sobe, os dados mostram que a substituição em massa é para o frango, a carne suína e os ovos, não para um peixe importado. Além disso: Preços com causas distintas. A picanha depende do ciclo pecuário e das exportações de carne; o salmão, do mercado internacional do salmão e da taxa de câmbio. Eles não se movem juntos. Identidade. A picanha é um corte de identidade nacional; o salmão é um produto importado e recente na dieta, com um teto cultural para o que pode deslocar. Escala. O salmão chileno importado em 2024 (142.335 toneladas) equivale a cerca de 1% da produção brasileira de frango de 2025 e a pouco mais de 2% da de carne suína. Mesmo que crescesse muito, seu efeito sobre a picanha seria marginal. O salmão grelhado nas praças de alimentação A Griletto, que se apresenta como a maior rede de grelhados do país, com mais de 150 lojas franqueadas, abriu unidades em shoppings de várias regiões (Paraná, São Paulo, Goiás) e mantém em seu cardápio contrafilé, picanha e salmão, além de parmegianas de carne e frango. Sua controladora, a Halipar, reúne cerca de 400 unidades de diferentes marcas em 24 estados. Restaurantes de perfil mais elevado, como o Coco Bambu, também oferecem salmão, geralmente grelhado, em suas unidades dentro de shoppings. A picanha e o salmão convivem em um mesmo cardápio popular, o que respalda a ideia de complemento: a rede oferece ambas as opções para atrair clientes e ocasiões distintas. Salmão e tilápia: complementares A tilápia é o peixe da piscicultura brasileira: 707.495 toneladas em 2025, 70% de todo o pescado cultivado, e um crescimento de 148% em dez anos, segundo a Peixe BR. A piscicultura superou pela primeira vez um milhão de toneladas (1.011.540). A produção de tilápia de 2024 (662.230 toneladas) foi mais de quatro vezes o salmão chileno que o Brasil importou naquele ano. O próprio setor reconhece que o consumo de pescado por habitante no Brasil é inferior à média mundial. A relação entre ambos é de complemento: Segmentos distintos. A tilápia é o peixe cotidiano, nacional e de preço acessível; o salmão é um produto premium, importado, associado ao sushi e à refeição especial. Atendem consumidores e ocasiões diferentes. A categoria se amplia, não se divide. O consumo de pescado no Brasil é baixo. Cada família que incorpora a tilápia ao cardápio semanal é um consumidor potencial que mais adiante experimenta o salmão. A tilápia forma o hábito; o salmão é o degrau seguinte. Cresceram ao mesmo tempo. Na última década, a tilápia cresceu 148% e, nesse mesmo período, os embarques de salmão chileno ao Brasil subiram em seis dos últimos sete anos até 2024. Podem crescer em paralelo, sem que um canibalize o outro. Infraestrutura compartilhada. Compartilham cadeia de frio, distribuição, gôndola de pescado e marco sanitário. As entidades setoriais de ambos os países têm interesse comum em aumentar o consumo total de pescado. Visão de conjunto: a proteína animal no Brasil A dieta brasileira se apoia em três carnes: frango, carne bovina e carne suína. O pescado, e dentro dele o salmão, é pequeno em comparação: O salmão é um produto de nicho com grande potencial: seu crescimento parte de uma base pequena, e por isso os percentuais anuais de aumento devem ser lidos com cuidado. O Brasil representa entre 13% e 14% das exportações de salmão do Chile e compra sobretudo salmão do Atlântico fresco inteiro, o que o torna sensível ao preço e à taxa de câmbio. Em resumo, o salmão complementa a tilápia e, no essencial, também a picanha: concorre com esta apenas na margem do orçamento premium. Ocupa um espaço próprio dentro de uma dieta dominada pelo frango, pela carne bovina e pela carne suína. Seu futuro no Brasil depende menos de tirar mercado de outras proteínas do que de ampliar o consumo de pescado junto com a tilápia e de manter fluida a relação sanitária e comercial entre os dois países. Alimento de luxo ou alimento essencial? O salmão e a reforma tributária A reforma tributária brasileira (lei complementar 214/2025) criou uma Cesta Básica Nacional com alíquota zero de IBS e CBS, que inclui as carnes bovina, suína, ovina e de aves, e os pescados, com uma exceção: o salmão e outros salmonídeos, assim como o atum, o bacalhau, o hadoque e as ovas, ficaram fora da lista. O legislador tratou o salmão como um produto de alto valor e não como um alimento de consumo majoritário, de modo que ele fica sujeito ao pagamento de impostos enquanto a carne bovina e a tilápia nacional gozam de alíquota zero. Essa classificação pode ser discutida. O salmão deixou de ser um produto exclusivo da alta gastronomia e do sushi: está nas praças de alimentação dos shoppings, nos cardápios de redes de grelhados com mais de 150 lojas e nos supermercados, e seu consumo se socializou de maneira transversal. Um alimento com essa difusão poderia se qualificar melhor como alimento essencial do que como produto de luxo, e esse é um argumento válido para pedir que seu tratamento tributário seja revisto. O fator sanitário e institucional O salmão é um produto de origem animal, de modo que seu ingresso no Brasil depende da inspeção sanitária do Mapa, por meio de seu departamento de inspeção de produtos de origem animal. Manter a confiança entre as autoridades dos dois países, com certificações em dia, rastreabilidade e canais técnicos fluidos, é tão importante quanto o preço ou a qualidade. Um embarque retido ou uma mudança de critério na fiscalização pode custar caro, em um mercado em que o frescor é decisivo. Desafios e oportunidades O crescimento também tem seus riscos: a concorrência de outras origens, a volatilidade da taxa de câmbio, o preço por quilo, que em 2026 caiu no conjunto das exportações chilenas, e a dependência de que os processos regulatórios continuem ágeis. Para a indústria, a oportunidade está em seguir diversificando formatos e produtos de maior valor agregado e em fortalecer o diálogo institucional com o Brasil. Conclusões O Brasil já não é um mercado complementar para o salmão chileno: é um sócio estratégico que cresce com o consumo. Sustentar esse crescimento depende de quatro fatores: A aliança público-privada é fundamental. O sucesso do salmão chileno no Brasil se explica pelo trabalho conjunto das empresas, das entidades setoriais e das instituições públicas de ambos os países. A marca Salmón de Chile, lançada no mercado brasileiro em 2012 com o apoio da ProChile, é um exemplo dessa coordenação. Mantê-la e aprofundá-la é essencial para continuar crescendo. A melhoria contínua na cadeia de distribuição. O produto que o Brasil mais compra é o salmão do Atlântico fresco inteiro, que exige frio, rapidez e rastreabilidade de ponta a ponta. Cada melhoria em logística, transporte e pontos de venda protege a qualidade e amplia o alcance do produto. As boas relações com a autoridade brasileira. O ingresso do salmão depende da inspeção sanitária do Mapa. A confiança entre as autoridades dos dois países, com certificações em dia e canais técnicos fluidos, é tão importante quanto o preço ou a qualidade, porque um embarque retido pode custar caro em um produto fresco. A socialização e a transversalidade do salmão no Brasil. O salmão já não é um produto exclusivo da alta gastronomia: está no sushi, nas praças de alimentação dos shoppings, em redes de grelhados e nos supermercados. Essa presença ampla é o melhor argumento para que o salmão seja reconhecido como alimento de consumo cotidiano e não apenas como produto de luxo. Quem participa da construção dessa relação sabe que ela se sustenta com confiança, informação oportuna e cooperação entre autoridades e empresas. Fontes: Serviço Nacional de Alfândegas do Chile, SalmonChile, ProChile Brasil (Comex Stat), InfoSalmon, SalmonExpert, Peixe BR (Anuário 2026), ABPA, IBGE (IPCA-15), Safras & Mercado, Abrasel, lei complementar 214/2025. Cifras em 3 de outubro de 2026. *Ricardo Moyano Monreal é advogado e ex adido comercial e adido agrícola do Chile no Brasil O Canal Rural não se responsabiliza pelas opiniões e conceitos emitidos nos textos desta sessão, sendo os conteúdos de inteira responsabilidade de seus autores. A empresa se reserva o direito de fazer ajustes no texto para adequação às normas de publicação. O post O salmão chileno no Brasil: um mercado que cresce com o consumo apareceu primeiro em Canal Rural.
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