Veja a Câmara que acompanhará Lula no seu quarto mandato

O chamado Centrão perderá espaço na Câmara dos Deputados a partir de 2027, mas o recuo no número de cadeiras não deve reduzir seu peso nas articulações entre o Congresso e o próximo governo. Com 121 deputados eleitos pelo PL e 50 pelo PT, nenhum dos dois principais polos políticos terá força para formar maioria sozinho. Assim, mesmo com a vitória, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) terá de construir alianças com partidos de centro-direita e de direita para garantir governabilidade e aprovar projetos, avaliam cientistas políticos ouvidos pelo Valor. A perda de espaço, porém, não foi uniforme entre as principais siglas do Centrão. O União Brasil, por exemplo, terá 46 representantes, 11 a menos que na eleição anterior, enquanto o PP ficará com 41, uma redução de seis cadeiras. O MDB elegeu 36 deputados, cinco a menos. Na direção oposta, PSD e Republicanos ganharam uma cadeira cada, chegando a 43 e 41 deputados, respectivamente, enquanto o Podemos avançou para 27, sete a mais que no último pleito. Ainda assim, essas bancadas permanecem essenciais para que PL ou PT consigam formar uma maioria na Casa. Lula tende a enfrentar uma tarefa mais difícil, avalia o diretor-executivo do Ibpad, Max Stabile. O petista precisa buscar apoio em um Congresso mais distante de sua agenda, segundo Stabile. Para o sócio da Arko Advice, Lucas Aragão, o Centrão continuará como “fiel da balança” da Câmara. Apesar do avanço do PL, ele avalia que a formação da maioria seguirá dependendo da negociação com esse bloco, que também buscará preservar o espaço conquistado nos últimos anos, preferencialmente com a manutenção do comando da Casa, seja com a reeleição de Hugo Motta (Republicanos), seja com outro nome do grupo. A maior proximidade ideológica entre esses partidos e o PL também não significa alinhamento automático. O analista político da 4intelligence, Ricardo Ribeiro, lembra que, embora boa parte dessas siglas seja de direita e esteja mais próxima ideologicamente do PL, todas tiveram algum cargo ou espaço no atual governo Lula. Para ele, isso mantém aberta a possibilidade de composição com o petista. Os acordos, portanto, serão desenhados nos dois campos políticos. Aragão avalia que Lula também tem condições de construir uma maioria na Câmara, embora com dependência muito maior do bloco. A nova composição do Congresso também deve influenciar as pautas com maior chance de avançar a partir do próximo ano. Questões de segurança pública, especialmente ligadas ao endurecimento penal, além de flexibilização regulatória e demandas do agronegócio, devem encontrar ambiente mais favorável, diz Stabile, do Ibpad. Já a ampliação da proteção ambiental e de direitos ligados à diversidade, pautas consideradas mais progressistas, deve enfrentar maior resistência. “Mas não dá para concluir que toda a pauta social será bloqueada”, pondera o profissional. “Quando uma proposta é favorável ao eleitor e o parlamentar pode ter algum prejuízo ao votar contra, ele tende a aprová-la, mesmo sendo ideologicamente contrário, como no caso do fim da escala 6x1”, complementa. Na avaliação de Ribeiro, um eventual novo governo Lula tenderia a se deslocar mais à direita em relação ao atual por uma necessidade de sobrevivência política. O primeiro desafio do petista, se reeleito, seria lidar com a desconfiança e uma eventual reação negativa dos mercados financeiros. “Vai ter que sinalizar algum ajuste fiscal sem também estar amarrado com os compromissos que ele assumiu durante a campanha”, afirma.

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