Natureza ficará mais próxima do relatório financeiro das empresas

A natureza começa a ganhar a mesma moldura que transformou o clima em informação financeira nos relatórios das empresas. O International Sustainability Standards Board (ISSB), braço da Fundação IFRS que define os padrões globais de relatórios de sustentabilidade, colocou em consulta pública uma proposta de regras para que as empresas divulguem informações financeiras ligadas à natureza. Na prática, o texto acrescenta requisitos mais detalhados de natureza aos relatórios IFRS S1 e S2, de sustentabilidade e clima. São orientações de como as empresas devem reportar os riscos (físicos e de transição) e oportunidades relacionados à natureza e biodiversidade que podem afetar fluxo de caixa, acesso a financiamento e custo de capital. “Seja para acesso à água para produção, a rios para transporte ou a abelhas para polinização, empresas em todo o mundo dependem da natureza. Quando o acesso de uma empresa a esses recursos ambientais é ameaçado, ela pode enfrentar riscos e oportunidades que afetam suas perspectivas”, disse o presidente do ISSB, Emmanuel Faber, em comunicado. O anúncio foi feito na COP17, a conferência da ONU sobre biodiversidade, em Yerevan, na Armênia. Ele chega alguns dias após os três principais referenciais voluntários do tema — a Taskforce on Nature-related Financial Disclosures (TNFD), a Science Based Targets Network (SBTN) e a Nature Positive Initiative (NPI) — lançarem versões revisadas e desenhadas para conversar entre si. De um lado, os referenciais voluntários se alinharam em torno de uma linguagem comum para medir, avaliar e definir metas. De outro, o órgão que dita as regras de divulgação para investidores começa a transformar essa linguagem em requisito. Um ‘manual’ que pode virar norma A proposta do ISSB tem a forma de um practice statement, uma espécie de guia de aplicação do IFRS S1, norma geral de sustentabilidade. No reporte S1, as empresas divulgam quais são os riscos materiais e as oportunidades relacionadas à sustentabilidade, o que já inclui os de natureza. O texto novo detalha como fazer isso, e sua adoção é voluntária. O conselho havia decidido não criar uma norma dedicada à natureza para não atrapalhar a adoção da S1 e da S2, a norma de clima, em curso em dezenas de países — inclusive no Brasil. A consulta, no entanto, reabre a discussão. O ISSB pergunta se o documento deve continuar como emenda ao IFRS S1 e S2 ou ganhar outro formato, possivelmente uma norma formal. Organizações ambientais, como a Nature Positive Initiative, pressionam por uma norma própria. As contribuições podem ser enviadas até 19 de fevereiro de 2027. A proposta foi desenvolvida aproveitando a estrutura e recomendações da TNFD, incorporando suas definições, métricas e metodologias, além de promover a interoperabilidade com normas regionais e globais, como as do Global Reporting Initiative (GRI) e os ESRS europeus. O objetivo é auxiliar as empresas a fornecerem informações úteis, consistentes, comparáveis e verificáveis a investidores, credores e outros interessados para apoiar a tomada de decisões de alocação de recursos. O que empresas teriam de divulgar O texto do ISSB tem a localização como eixo central. A empresa precisa explicar os fatores de localização de cada risco ao longo da sua cadeia de valor, como áreas com estresse hídrico ou importantes para a biodiversidade. A proposta também pede que a governança e a estratégia mostrem como a empresa se relaciona com povos indígenas, comunidades locais e outros grupos afetados. A análise de cenários de natureza é obrigatória, mas pode ser proporcional ao porte da empresa, até em formato qualitativo. A empresa também precisa divulgar os trade-offs entre natureza e clima. Nas métricas, as companhias teriam de informar o valor e o percentual de ativos ou atividades vulneráveis a riscos de natureza e alinhados a oportunidades. A empresa pode omitir informação sigilosa ou comercialmente sensível sobre oportunidades em natureza, mas o mesmo não vale para os riscos. Também não precisa apresentar dados comparativos no primeiro ano de divulgação. A outra metade do caminho Se o ISSB responde “o que divulgar”, os referenciais voluntários publicados por TNFD, SBTN e NPI em outubro respondem “como medir”. O objetivo é atacar uma queixa recorrente das empresas que começaram cedo nesta agenda: o excesso de métricas e metodologias sobrepostas, que as obriga a refazer o trabalho a cada relatório. A base comum é o conjunto de indicadores da Nature Positive Initiative. Depois de dois anos de trabalho com mais de 500 especialistas e testes em 29 empresas, a iniciativa reduziu mais de 600 métricas a quatro indicadores do estado da natureza: extensão do ecossistema, condição do ecossistema, risco de extinção de espécies e populações de espécies. Os quatro já foram incorporados pela TNFD e pela SBTN, e a GRI caminha na mesma direção. “É um sinal positivo de que o cenário ambiental está se tornando mais coerente e mais fácil para as empresas navegarem”, disse Eva Zabey, CEO da Business for Nature, uma coalizão sem fins lucrativos. A TNFD lançou o LEAP 2.0 (Locate, Evaluate, Assess and Prepare), primeira grande revisão de sua metodologia de avaliação desde 2023. A nova versão inclui a medição do estado da natureza, crimes ambientais, espécies invasoras e orientações para que instituições financeiras avaliem seus portfólios. Mais de mil organizações em 56 países publicaram relatos alinhados às recomendações da força-tarefa. Com a nova metodologia, a TNFD encerra seu programa técnico e passa o bastão ao ISSB, que já declarou que seu trabalho se apoia na metodologia da força-tarefa. “É essencial que as abordagens de avaliação, definição de metas e relato funcionem juntas de forma prática e se reforcem mutuamente”, afirmou Tony Goldner, CEO da TNFD. A SBTN, por sua vez, lançou a versão 2.0 de suas metas baseadas em ciência para a natureza. A principal mudança é a flexibilidade: as empresas podem começar por escopos menores, definir metas de engajamento de fornecedores e passar pela validação em etapas. O método também passa a cobrir a regeneração de terras produtivas e restauração, além de setores como mineração, infraestrutura e construção. Na água doce, a cobertura inclui o impacto de pesticidas. A flexibilização responde a um dado incômodo: apenas cerca de três dezenas de empresas estavam a caminho de ter metas de natureza validadas pela SBTN em setembro, contra mais de mil que já relatam pela TNFD. “As empresas não podem esperar por dados perfeitos, visibilidade perfeita ou condições perfeitas para agir”, disse Erin Billman, CEO da SBTN, ao site Trellis. Ela acrescentou que tornar o método mais prático “não significa baixar a régua”. E o Brasil? Poucas economias têm uma exposição tão direta à natureza quanto a brasileira. Agronegócio, mineração, papel e celulose, energia e alimentos dependem de água, solo e biodiversidade, e operam em biomas sob pressão. É justamente o tipo de dependência que a localização, eixo da proposta do ISSB, pretende tornar visível para o investidor. A Comissão de Valores Mobiliários (CVM) incorporou os padrões do ISSB à regulação brasileira por meio da Resolução 193, que tornou o relato nos padrões IFRS S1 e S2 obrigatório para companhias abertas a partir de 2026. Em maio deste ano, no entanto, a autarquia derrubou a obrigatoriedade e adotou o modelo voluntário de “pratique ou explique”: quem não reporta precisa justificar. No mundo, cerca de 40 jurisdições adotaram os padrões ISSB, segundo o IFRS — a organização não faz o levantamento se de forma obrigatória ou voluntária. Um indicador do alcance que o reporte de natureza pode ter é a adoção voluntária da TNFD: 97 empresas estão registradas para divulgações financeiras de natureza alinhadas à força-tarefa. Dessas, 5 são brasileiras: Aegea (saneamento), Amaggi (agro), Caixa Econômica Federal (banco), Neoenergia (energia elétrica) e I Care Brasil (consultoria ambiental). O post Natureza ficará mais próxima do relatório financeiro das empresas apareceu primeiro em Reset.

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