O avanço da inteligência artificial e da automação nas empresas brasileiras está ampliando uma demanda que vai além dos softwares: a necessidade de infraestrutura para processar dados, garantir conectividade e assegurar o fornecimento de energia. O desafio é que a modernização tecnológica nem sempre acompanha a capacidade das empresas de integrar esses sistemas ou a disponibilidade de infraestrutura para colocá-los em funcionamento. Esse cenário está abrindo oportunidades para fornecedores especializados em projetos que combinam diferentes tecnologias. A pressão já aparece no planejamento energético brasileiro. Segundo a Empresa de Pesquisa Energética (EPE), o consumo de eletricidade no país deverá crescer, em média, 3,4% ao ano até 2036, alcançando 979 terawatts-hora (TWh). A projeção, apresentada no Plano Decenal de Expansão de Energia 2036, considera o avanço da eletrificação e de novas demandas, como a expansão dos data centers. O cenário amplia a necessidade de investimentos não apenas em geração e transmissão, mas também em armazenamento e gestão da energia. O desafio também alcança setores tradicionais da economia, como agronegócio, indústria e mineração. Nessas atividades, projetos de automação, eletrificação e aumento da capacidade produtiva podem depender de investimentos simultâneos em energia, conectividade, segurança e sistemas de controle. A dificuldade não está necessariamente na ausência de tecnologias disponíveis, mas na capacidade de reunir diferentes soluções em projetos técnica e financeiramente viáveis. "Durante muito tempo, o mercado de distribuição de tecnologia trabalhou com uma lógica muito concentrada na venda de equipamentos. Mas uma empresa que precisa modernizar sua operação não resolve o problema apenas comprando um produto. Ela precisa de infraestrutura, integração e conhecimento técnico para que aquela tecnologia funcione dentro da realidade do negócio", afirma Tarcisio Dario, fundador e CEO da IP77, distribuidora especializada em soluções tecnológicas de alto valor agregado. Criada em abril de 2023, em Goiânia, a IP77 surgiu a partir dessa percepção. A empresa atua na distribuição de tecnologias para infraestrutura de TI, conectividade, data centers, segurança com inteligência artificial e armazenamento de energia, fornecendo equipamentos e suporte técnico a integradores responsáveis pela implantação das soluções. Entre seus parceiros comerciais estão fabricantes internacionais como Huawei Digital Power, Hikvision, Eaton, Legrand e R&M. No agronegócio, um dos exemplos dessa demanda está na irrigação. Propriedades rurais localizadas em regiões com limitações de infraestrutura elétrica podem enfrentar dificuldades para instalar sistemas que exigem maior disponibilidade de potência. Nesses casos, a integração de geração renovável, armazenamento em baterias e gestão inteligente do consumo pode permitir a ampliação da atividade produtiva sem depender exclusivamente de novas conexões à rede. Os sistemas de armazenamento de energia em baterias, conhecidos pela sigla BESS, permitem acumular eletricidade para utilização posterior e administrar a oferta de energia conforme a necessidade da operação. A aplicação também pode contribuir para projetos industriais e de mineração que buscam reduzir a dependência de geradores a diesel, ampliar a automação ou garantir maior previsibilidade energética. "Em muitas operações, a limitação não está na capacidade de produzir mais, mas na infraestrutura necessária para isso. Um produtor pode ter terra, água e condições de ampliar a produção, mas não conseguir instalar irrigação porque a rede elétrica não entrega a potência de que ele precisa. O armazenamento de energia, associado a outras tecnologias, pode mudar essa equação", explica Dario. A necessidade de integração também aparece nos projetos de data centers, que reúnem equipamentos de processamento, sistemas de rede, climatização, distribuição de energia e controle de acesso. A IP77 afirma participar atualmente de 34 projetos relacionados ao segmento, fornecendo soluções de diferentes fabricantes para atender às exigências desses ambientes. O mercado também enfrenta desafios relacionados à disponibilidade de potência elétrica, à eficiência energética e à necessidade de manter operações contínuas. Na área de segurança, o avanço da inteligência artificial embarcada em equipamentos também vem alterando as aplicações do videomonitoramento. Sistemas com análise automatizada de imagens podem identificar movimentações em perímetros extensos, diferenciar determinados tipos de presença e gerar alertas para equipes responsáveis pela operação. A tecnologia encontra aplicações em propriedades rurais, instalações industriais, universidades e subestações de energia. A demanda por soluções mais complexas acompanha a expansão da IP77, que começou suas atividades com sete funcionários e atualmente reúne 38 profissionais e mais de 10 mil empresas cadastradas em seu ecossistema comercial. Após aproximadamente um ano e meio de operação, a companhia recebeu investimento de um family office ligado ao Grupo KLT, destinado a apoiar o fortalecimento da estrutura operacional e financeira. Para 2027, a distribuidora prevê ultrapassar R$ 100 milhões em faturamento, impulsionada pela atuação em segmentos que exigem infraestrutura tecnológica especializada. Para Dario, o avanço dessas tecnologias coloca o Brasil diante de um desafio que ultrapassa a aquisição de novos equipamentos. A modernização das atividades produtivas depende da capacidade de adaptar soluções desenvolvidas globalmente às condições de infraestrutura, investimento e operação das empresas brasileiras. "O Brasil tem oportunidades importantes em automação, energia e infraestrutura digital. O desafio é fazer essas tecnologias chegarem às empresas de uma forma que resolva problemas de produtividade e competitividade. Não basta trazer equipamentos de outros mercados. É preciso compreender onde eles podem ser aplicados e como integrar as soluções", conclui.
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