A licença de entrada concedida pelos Estados Unidos ao ex-candidato Flávio Bolsonaro (PL) foi restringida neste segundo mandato de Donald Trump, na comparação com o governo anterior do democrata Joe Biden. Flávio entrou nos EUA nesta quarta-feira com uma classe de admissão do tipo "DT", sigla que se refere a "parole" ("liberdade condicional"), isto é, uma permissão oferecida de forma discricionária pelas autoridades para a pessoa entrar e residir temporariamente nos EUA sem admissão formal, geralmente por razões humanitárias urgentes ou benefício público significativo. Os registros foram consultados, inicialmente, pelo Metrópoles e confirmados pelo Valor. “Nós demos a ele um passe para ele vir ao país”, disse Trump ontem antes de embarcar para Ohio. Consultas no Serviço de Alfândega e Proteção de Fronteiras dos EUA com três tipos de passaporte de Flávio — o italiano e o diplomático e o brasileiro, cancelados — mostram a entrada do senador no país no dia 28 nos dois últimos. Pelos registros, a classe de admissão a Flávio foi concedida sob seu passaporte normal. Uma pessoa que entra nos EUA em liberdade condicional não foi formalmente admitida para fins de imigração. A licença de liberdade condicional de Flávio tem validade até 27 de outubro de 2027. Até lá, ele pode buscar regularizar sua situação de outra forma, por exemplo, solicitando asilo ou obtendo um "green card" – como fez seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro. O regime também não concede, automaticamente, o direito de trabalhar, mas é possível se tornar elegível para solicitar um Documento de Autorização de Emprego. Segundo advogados ouvidos pelo Valor, a entrada nos EUA por liberdade condicional costuma ser uma exceção. No ano fiscal de 2026 (que nos EUA começa em outubro de 2025), com dados até julho deste ano, foram expedidas 75.431 autorizações para entrada em liberdade condicional. Em 2025, foram 44.175. Os dados são do Centro de Informações de Acesso a Registros Transacionais (Trac, na sigla em inglês). Esses números até são maiores do que os do governo Trump 1 (2017-2020), quando 179.727 autorizações foram concedidas ao longo de quatro anos. Mas, no governo do democrata Joe Biden, cujo ritmo de concessão destoou até mesmo da administração de Barack Obama, as permissões de entrada em liberdade condicional ao longo de quatro anos somaram 973.075. Segundo o Serviço de Cidadania e Imigração dos Estados Unidos (USCIS, na sigla em inglês), não existe uma definição regulamentar para "razões humanitárias urgentes", mas os agentes levam em consideração fatores como "o efeito das circunstâncias no bem-estar do indivíduo" e "o grau de sofrimento que pode resultar caso a liberdade condicional não seja autorizada". Já a liberdade condicional baseada em benefício público significativo inclui, entre outros, "razões de segurança pública e de aplicação da lei, ou considerações de política externa ou interna". Embora o governo atual esteja promovendo deportação em massa e as autoridades na fronteira tenham o poder de deportar indivíduos diretamente por meio de procedimentos de remoção acelerada, o Trac nota que o uso desse mecanismo caiu nos últimos 12 meses, bem como a emissão de Notificações de Comparecimento (NTAs) ao Tribunal de Imigração. Por outro lado, ainda que em volume represente uma pequena fração das entradas e bem abaixo dos anos Biden, as autoridades de Trump permitiram um número 71% maior de não cidadãos no país por meio de liberdade condicional em 2026 do que em 2025, primeiro ano do governo republicano. No caso do Brasil, as concessões de entrada com liberdade condicional disparam neste ano, saindo da casa anual das centenas, patamar em que rodavam desde 2012, para 3.130 no ano fiscal de 2026, até julho. Em janeiro deste ano, por exemplo, 87,8% dos brasileiros que chegaram aos EUA sem documentação adequada para entrar no país receberam liberdade condicional, segundo o Trac. Um fator importante considerado ao determinar se a liberdade condicional é concedida ou não é se o beneficiário terá meios de subsistência enquanto estiver nos EUA. Alternativamente, a autoridade também pode exigir que haverá uma pessoa disposta a sustentar financeiramente o beneficiário no país. "A falta de comprovação de sustento financeiro durante a estadia nos Estados Unidos é um forte fator negativo que pode nos levar a negar a liberdade condicional", diz o USCIS.
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