As minas de cobre envelhecidas do Chile vêm sendo atingidas por acidentes fatais, eventos climáticos extremos e falhas operacionais, levantando dúvidas sobre a rapidez com que o maior produtor mundial conseguirá se recuperar do menor nível de produção em mais de duas décadas. Pelo menos sete trabalhadores morreram em minas chilenas no último mês, incluindo dois em uma avalanche na operação El Teniente, da Codelco. Chuvas intensas e nevascas vêm interrompendo repetidamente atividades de mineração e infraestrutura, enquanto tensões trabalhistas persistentes adicionam uma nova camada de incerteza. Isso ocorre mesmo após os funcionários de uma mina da Antofagasta encerrarem uma greve e a BHP evitar por pouco uma paralisação em Escondida, a maior mina de cobre do mundo. Os problemas acontecem enquanto traders, produtores e investidores se reúnem em Londres para a LME Week, onde a desaceleração da oferta de minério deve ser um dos principais temas, à medida que participantes negociam contratos para 2027. Embora os fluxos comerciais relacionados a tarifas tenham sido o principal motor dos preços recordes do cobre neste ano, os problemas na mineração são outro fator crítico, especialmente no Chile, responsável por mais de 20% da oferta mundial extraída. Os contratempos aumentam a probabilidade da primeira queda anual da produção global de minas desde 2017, justamente quando a demanda impulsionada por data centers e pela expansão das redes elétricas acelera. A recente sequência de eventos climáticos extremos expõe um dilema de longo prazo para uma indústria construída em torno das condições historicamente áridas do Chile. Também oferece um vislumbre do que pode estar por vir com o fortalecimento do fenômeno El Niño. Temperaturas mais elevadas podem deslocar massas de gelo em operações de alta altitude, ameaçando a estabilidade das minas e das rotas de transporte. Novas interrupções podem ocorrer, já que as autoridades recomendaram que as mineradoras considerem suspender atividades com a aproximação de outra tempestade. Leia também Qual é o risco de a Bolsa cair após o 2º turno? Veja 5 ações para se proteger Em meio a expectativa de volatilidade, analistas recomendam ajustar pesos sem girar toda a carteira antes do dia 25 Taxas do Tesouro Direto caem forte após novas pesquisas, mesmo com alta do petróleo Prefixados devolvem praticamente toda a alta registrada ao longo de segunda-feira, em dia de pesquisas Real Time Big Data e Alfa Inteligência com Flávio à frente de Lula “Há claramente uma forte influência das mudanças climáticas e uma capacidade limitada do setor de mineração de se adaptar”, afirmou Cristian Cifuentes, chefe de pesquisa do centro chileno de estudos sobre cobre Cesco. As interrupções causadas pelo clima se somam a desafios estruturais. As grandes minas do Chile estão envelhecendo; as cavas ficam mais profundas e a qualidade do minério se deteriora, exigindo que as empresas movimentem e processem mais material para produzir a mesma quantidade de cobre. Analistas da Jefferies estimam que as minas a céu aberto do país enfrentam um declínio natural de cerca de 2% ao ano na produção, e que os investimentos recentes não têm sido suficientes para compensar essa tendência. O Chile vive uma “grande recessão mineradora”, afirmou o ministro das Finanças, Jorge Quiroz, em setembro. Ele prevê que a produção caia cerca de 7% neste ano antes de se recuperar parcialmente em 2027. Uma queda dessa magnitude levaria a produção para aproximadamente 5 milhões de toneladas métricas, o menor nível anual desde 2003. Na época, a demanda global era cerca de 45% menor, e o Chile respondia por mais de um terço da produção mundial de cobre extraído, justamente quando começava o boom das commodities impulsionado pela China. Há uma década, a comissão estatal chilena do cobre, Cochilco, estimava que o país poderia produzir 8,5 milhões de toneladas até 2025 caso os projetos planejados fossem executados. Mesmo em 2022, a agência projetava 6,4 milhões de toneladas para 2025. Na prática, porém, novos projetos e expansões não conseguiram compensar a queda dos teores do minério e o amadurecimento das minas. Existe um debate considerável sobre o quão ruim será este ano e a velocidade da recuperação. A Cochilco prevê uma queda de 2,6% em 2026, seguida por uma recuperação de 5,2% em 2027. Já a consultoria CRU Group deve revisar sua estimativa de queda de cerca de 3% para algo mais próximo de 5%, segundo o analista Nicolás Muñoz. A CRU acredita que o Chile só voltará a produzir 6 milhões de toneladas em 2030, devido à escassez de grandes projetos novos. “Não é porque somos pessimistas, mas porque não temos uma razão técnica para esperar uma recuperação mais rápida”, disse Muñoz. A Codelco está no centro do problema. A estatal luta para estabilizar a produção após anos de queda, em meio a dificuldades em projetos destinados a modernizar minas envelhecidas. Acidentes fatais e interrupções provocadas pelo clima atingiram sua maior operação, enquanto a empresa investiga possíveis irregularidades nos números de produção de 2024 e 2025. Sob a presidência de Bernardo Fontaine, a companhia mudou de estratégia. Em vez de perseguir uma recuperação dos níveis históricos de produção, passou a priorizar produtividade e rentabilidade. A mudança pode resultar em uma força de trabalho menor, à medida que a empresa busca reduzir custos e maximizar valor em suas operações atuais. Isso aponta para um risco duplo para a oferta chilena. A elevada dívida e a fragilidade financeira da Codelco dificultam os investimentos necessários para estabilizar e ampliar a produção. Mas até mesmo produtores com caixa robusto enfrentam a deterioração da qualidade do minério, eventos climáticos extremos e desafios geológicos cada vez maiores. A produção da mina Escondida, da BHP, despencou 28% em agosto na comparação anual. Na Collahuasi, controlada por Anglo American e Glencore, a produção caiu 25% no mesmo mês, resultado atribuído por líderes sindicais, entre outros fatores, ao clima e à manutenção das operações. Nem tudo, porém, é negativo. A Antofagasta registrou crescimento na produção no terceiro trimestre, embora em ritmo inferior ao esperado pelos analistas. As tensões trabalhistas também continuam sendo um foco de preocupação. Mais de mil supervisores e funcionários da Escondida aceitaram um acordo de última hora que evitou uma greve. Já 709 trabalhadores da mina Centinela, da Antofagasta, retornaram ao trabalho após uma paralisação de mais de uma semana. Ao mesmo tempo, a Codelco tenta recuperar bônus pagos a funcionários após corrigir números de produção que haviam sido superestimados. A mina Spence, da BHP, processa judicialmente seu sindicato por paralisações que considera ilegais. A entidade sindical afirma que a ação é uma tentativa de intimidação e distorce uma disputa baseada em preocupações antigas relacionadas à saúde e à segurança dos trabalhadores. Analistas da Jefferies afirmam que as limitações estruturais exigirão investimentos cada vez maiores apenas para manter os níveis atuais de produção. A CRU passou a adotar uma visão mais otimista para o preço do cobre diante das preocupações com a oferta, projetando uma cotação média de cerca de US$ 6,20 por libra-peso em 2027, acima das previsões divulgadas em junho, embora abaixo dos cerca de US$ 6,60 observados atualmente. Ainda assim, Cifuentes alerta contra a interpretação de que a queda deste ano marque o início de um declínio inevitável. Para ele, o Chile voltará a crescer, mas em ritmo lento demais para preservar sua participação histórica na produção global. Isso dependerá da concretização de projetos privados, da execução dos investimentos estruturais da Codelco e da adoção de novas tecnologias capazes de extrair mais valor dos recursos já existentes. “O mercado terá de se acostumar com um Chile estagnado e com uma participação menor, em vez de um Chile em queda livre”, afirmou Cifuentes. © 2026 Bloomberg L.P. The post Boom do cobre encobre crise da mineração no Chile, maior produtor global appeared first on InfoMoney.
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