Entulho pode agravar alagamentos, mas menos da metade dos estados consultados monitora ou mapeia áreas de descarte irre

As chuvas que provocam alagamentos nas cidades brasileiras encontram, em alguns locais, obstáculos que começam muito antes dos temporais: restos de obras, tijolos, plásticos, móveis e terra de obras descartados irregularmente em ruas, margens de córregos e áreas de drenagem. Esses materiais podem bloquear a passagem da água e agravar os impactos das precipitações. Apesar desse risco, apenas 11 das 24 unidades da Federação participantes da Pesquisa Setorial Abrecon 2026, aproximadamente 46%, declararam realizar ações de monitoramento ou mapeamento de áreas clandestinas irregulares de descarte de resíduos. O alerta ganha relevância diante da previsão de chuva para os próximos dias. Segundo o painel de previsão da Defesa Civil do Estado de São Paulo, a capital paulista pode registrar 10 milímetros de chuva na quarta-feira (28) e 27 milímetros na quinta-feira (29), quando há previsão de chuva pela manhã e possibilidade de temporais à tarde. O cenário reforça a importância da manutenção dos sistemas de drenagem e da destinação adequada dos resíduos, especialmente em áreas vulneráveis a alagamentos. O levantamento da Associação Brasileira para Reciclagem de Resíduos da Construção e Demolição (Abrecon) mostra que as lacunas de acompanhamento vão além da identificação dos pontos de descarte. Entre as 11 unidades da Federação que declararam monitorar ou mapear essas áreas, somente Paraíba, Rio de Janeiro e Sergipe informaram divulgar relatórios periódicos sobre monitoramento, limpeza ou fiscalização desses locais. Os resultados têm abrangência nacional e não permitem atribuir a mesma situação a todos os municípios. "Quando restos de uma obra são deixados na rua ou na margem de um córrego, eles não desaparecem com a chuva. Parte desse material pode ser arrastada e se acumular justamente onde a água precisa passar. Em locais que já apresentam dificuldades de drenagem, o descarte irregular acrescenta um problema que poderia ser evitado", afirma Levi Torres, coordenador da Abrecon. Na prática, o entulho pode interferir no escoamento de diferentes formas. Materiais depositados junto a bueiros podem bloquear a entrada da água, enquanto resíduos acumulados em galerias e cursos d'água podem reduzir o espaço disponível para sua passagem. A dimensão do impacto depende da quantidade e do tipo de material, do local de descarte e das condições da infraestrutura existente. Essa preocupação aparece também nas respostas dos órgãos de controle consultados pela pesquisa. Problemas de drenagem e infraestrutura urbana, contaminação do solo e proliferação de vetores foram os três efeitos mais citados pelos Ministérios Públicos e Tribunais de Contas, cada um com frequência de 40%. O indicador expressa os problemas relatados pelos respondentes e não significa que o entulho seja responsável por 40% dos alagamentos. Crédito: Divulgação/Abrecon PressWorks As inundações têm múltiplas causas, como a intensidade das chuvas, a impermeabilização do solo, a ocupação de áreas inundáveis e as condições dos sistemas de drenagem. A presença de resíduos pode agravar esse quadro, mas a relação com uma ocorrência específica exige avaliação das condições locais. Para a Abrecon, o controle do descarte deve integrar as medidas preventivas, ao lado da manutenção e dos investimentos em infraestrutura. "Não podemos atribuir toda enchente ao entulho, mas precisamos olhar para os fatores que dificultam a passagem da água. Mapear os pontos de descarte, impedir que continuem recebendo resíduos da construção e garantir alternativas de destinação são ações que precisam acontecer antes das próximas chuvas", diz Torres. Mesmo quando a chuva termina e a água baixa, os resíduos podem permanecer acumulados nas ruas, nas margens dos córregos e nas estruturas de drenagem. Sem a remoção adequada e o controle de novos despejos, o problema pode se repetir nas precipitações seguintes. Por isso, a limpeza após um temporal precisa ser acompanhada de medidas que evitem a formação e a reutilização de pontos clandestinos. A prevenção começa também no planejamento de pequenas reformas. Resíduos de construção e demolição, conhecidos como entulho, são gerados em obras, reformas, reparos e demolições e exigem destinação adequada às suas características. Parte desses materiais, como concreto e componentes cerâmicos, pode ser processada em usinas e transformada em agregados reciclados para aplicações na construção civil, conforme as exigências técnicas de cada uso. Quem realiza uma obra deve consultar os locais de recebimento e as regras do município, contratar transportadores (caçamba) regularizados quando necessário e solicitar comprovação da destinação dos resíduos da construção. "O cuidado não termina quando a caçamba sai da obra. É preciso saber para onde o material foi levado. A destinação correta, associada à fiscalização e à oferta de locais adequados de recebimento, ajuda a impedir que o entulho termine nas ruas e nos cursos d'água", conclui Torres.

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