Investigação sobre fraude fiscal atinge FIDCs da antiga Singulare, comprada pela QI Tech

A QI Tech foi alvo de uma operação de busca e apreensão na quarta-feira (4), no âmbito das operações Enxágue e Catéter, do Ministério Público do Paraná e Receita Federal (MPPR). As investigações apuram o envolvimento de fundos de investimentos em direitos creditórios (FIDCs) em fraudes fiscais. Esses fundos eram administrados pela Singulare, cuja comprada pela QI Tech foi anunciada em 2023. Segundo o MPPR, as duas investigações têm como alvo organizações criminosas voltadas à prática de crimes contra a ordem tributária (sonegação de ICMS), falsidade ideológica e lavagem de dinheiro no comércio de subprodutos de origem animal, como sebo e gordura, utilizados como matéria-prima por indústrias de biodiesel e curtumes. Foram cumpridos 64 mandados de busca e apreensão em 28 municípios e nove mandatos de prisão, além de ordens de sequestro e indisponibilidade de bens, que somados alcançam R$ 271,5 milhões. "Embora autônomas, as investigações são conexas. Em ambas, foram identificados os mesmos fundos de investimento em direitos creditórios, geridos e administrados pela mesma instituição, utilizados como canais para converter títulos sem lastro em recursos com aparência de legalidade", diz a promotoria paranaense. De acordo com a Receita Federal, a análise financeira contou com o Laboratório de Tecnologia contra Lavagem de Dinheiro (LAB-LD) do MPPR e examinou as contas de 67 pessoas físicas e jurídicas. "Um único FIDC, ligado a um grupo econômico de Maringá, injetou R$ 60 milhões em empresas de fachada." Procurada, a QI Tech informou que atendeu a uma requisição de documentos de autoridades públicas do Estado do Paraná, no âmbito de investigação sobre operações realizadas por terceiros em fundos administrados pela Singulare. "Os fatos sob apuração referem-se ao período entre 2016 e 2021, anterior à aquisição da Singulare pela QI Tech, concluída em novembro de 2024. Os fundos mencionados têm suas decisões de investimento tomadas por gestores independentes, não integrantes do grupo QI Tech." A fintech diz ainda que seu papel limitou-se ao fornecimento das informações solicitadas. "A QI Tech não é alvo da investigação e segue operando normalmente, reiterando seu compromisso com a transparência e a cooperação com as autoridades." Carros da polícia foram vistos em frente à sede de companhia, em São Paulo, na quarta-feira de manhã. Do total de recursos bloqueados, R$ 63,8 milhões são relativos a cotas de dez FIDCs. Outros R$ 10,9 milhões estão relacionados a quatro companhias securitizadoras. Segundo o Valor apurou, alguns desses fundos ainda estão em atividade, mas outros já teriam sido encerrados. Uma fonte com conhecimento do assunto argumenta que a responsabilidade pelos processos de "know your client" (conheça seu cliente) e prevenção à lavagem de dinheiro é das gestoras do fundo, e não da QI Tech, que atuava como administradora. Não há detalhes sobre o patrimônio dos fundos afetados, mas estima-se que eles representem menos de 1% do total sob administração da QI Tech. Juntos, esses FIDCs tinham mais de 8 mil cedentes, sendo que as empresas investigadas são 13, ou seja, uma parcela muito pequena dentro deste universo. Os fundos estariam com documentos atualizados perante a CVM e balanços auditados. Também não há informações sobre o total de cotistas desses fundos, mas o que se sabe é que não são veículos voltados ao varejo, com milhares de investidores. (Colaborou Gabriel Roca)

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