A criadora de conteúdo brasileira Tábata Lenk havia acabado de ser demitida de seu emprego em São Paulo e estava parada no trânsito quando dois assaltantes em uma motocicleta quebraram a janela de seu carro e arrancaram seu celular novo do painel. As imagens do assalto ocorrido no final de agosto, gravadas pela câmera do próprio veículo, viralizaram imediatamente, disse Lenk. A reação reflete como um transtorno urbano se tornou um dos temas centrais da eleição presidencial deste ano — embora os furtos e roubos de aparelhos venham caindo desde 2023, ainda foram registrados cerca de 830 mil casos no ano passado, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública. Mesmo com a taxa de homicídios no Brasil caindo 40% nos últimos 10 anos, atingindo 15,4 por 100 mil habitantes em 2025, segundo o Fórum, o roubo de celulares serve como um lembrete de quão longe o país ainda precisa ir para trazer uma sensação de segurança aos seus mais de 210 milhões de habitantes. O roubo de celulares ainda ocupa a 4ª posição entre as maiores preocupações de segurança dos brasileiros, mostrou uma pesquisa realizada em março, ficando à frente de balas perdidas e invasões domiciliares. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva e seu adversário de direita, Flávio Bolsonaro, que disputarão um acirrado segundo turno no próximo domingo, têm se movimentado para demonstrar rigor no combate aos ladrões de celular. Lula assinou uma lei no início deste ano que eleva as penas para roubo de eletrônicos para até 10 anos de prisão e lançou uma plataforma para registrar dispositivos e denunciar furtos, enquanto Bolsonaro propôs uma pena mínima de oito anos de reclusão. "Eu quero mirar apenas no ladrão e na loja que compra e vende o celular roubado, não quero prejudicar a pessoa inocente que comprou por necessidade", disse Lula em pronunciamento na televisão. "O ladrão de celular vai para a cadeia", afirmou Bolsonaro em transmissão ao vivo após o primeiro turno. Lenk disse que se sentiu tão insegura após o assalto que só voltou a dirigir sozinha depois de insulfilmar os vidros do carro. "Ninguém deveria ter medo de sair de casa, andar na rua ou usar o próprio celular", disse Lenk. "Por isso, acredito que escolher políticos comprometidos com a segurança pública seja essencial." Relação de amor Em um dos países mais conectados do mundo, onde as redes sociais e os pagamentos digitais dominam a vida cotidiana, o celular se tornou um item indispensável. Natasha Bachini Pereira, pesquisadora do Núcleo de Estudos da Violência da Universidade de São Paulo (NEV-USP), afirmou que a prevalência do roubo de celulares explica seu impacto político. "É muito mais comum alguém conhecer ou ter sido exposto a um caso de roubo de celular do que de um carro, um homicídio ou um sequestro", disse Pereira. Os aparelhos são caros no Brasil, assim como o custo para substituí-los. Uma pesquisa do Deutsche Bank mostrou que tarifas, impostos e a desvalorização cambial fazem com que o Brasil tenha o segundo iPhone 17 Pro mais caro do mundo — com um aparelho novo custando cerca de US$ 2.260, em comparação com US$ 1.181 nos Estados Unidos. Até mesmo aparelhos mais modestos representam um enorme gasto para muitos brasileiros. Um celular médio custava cerca de R$ 2.310 (US$ 456,83) em 2025, de acordo com a empresa de dados de mercado IDC, o que equivale a cerca de dois terços da renda média mensal no Brasil. Muitas vezes, os criminosos estão tão interessados no acesso aos aplicativos de banco quanto no próprio aparelho. Com a rápida expansão dos serviços financeiros digitais no Brasil — impulsionada pelo sistema de pagamentos Pix do Banco Central —, as fraudes envolvendo dispositivos roubados explodiram, mais que quadruplicando de 2024 para 2025, segundo o Fórum, uma organização sem fins lucrativos que promove políticas de segurança pública. Após os criminosos roubarem o celular de Lenk, eles retiraram R$ 2.000 de sua conta bancária utilizando o Pix. "É terrível passar pela violência de ter seu celular roubado, mas perceber que alguém invadiu sua privacidade e conseguiu tirar dinheiro da sua conta é absolutamente angustiante", desabafou Lenk. Esforços de recuperação Como o Estado mais populoso do Brasil, São Paulo responde por quase um terço de todos os roubos de celular do país, aponta o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, com 268.184 aparelhos levados no ano passado, citando dados das autoridades estaduais. A polícia de São Paulo está trabalhando para prevenir o roubo de celulares "da forma mais enérgica possível e melhorar a segurança pública", disse Rodolfo Latif Sebba, delegado da Polícia Civil que coordena os esforços para localizar aparelhos roubados. Ainda assim, apenas uma fração dos aparelhos roubados é devolvida aos seus legítimos donos. Entre junho de 2025 e 23 de setembro deste ano, a polícia do Estado de São Paulo recuperou 38.028 celulares e devolveu 11.445 aparelhos às vítimas de roubo, informou a corporação. A estudante Natália Eduarda Benvindo, de 17 anos, custou a acreditar quando a polícia localizou seu telefone roubado. "Eu perguntei: 'vocês estão brincando?'", contou Benvindo. "Eu nem conseguia acreditar na hora, uau! Fiquei muito feliz."
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