Nas redes, apoiadores de Lula repercutem caso Ana Clara e os de Flávio exploram fala de Lula sobre polícia

Os apoiadores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) adotaram estratégias distintas para repercutir nas redes sociais o último debate presidencial, realizado na sexta-feira (23) pela TV Globo. Enquanto o campo governista apostou na divulgação de trechos envolvendo o caso Ana Clara, em checagens de fatos e em críticas ao adversário, a oposição concentrou esforços em uma declaração de Lula sobre a polícia, segundo levantamento da consultoria Ágora Comunicação e Public Affairs. A pesquisa também identificou uma participação reduzida de usuários que manifestaram insatisfação com os dois candidatos ou disseram ainda não ter decidido o voto. A análise identificou 4 milhões de menções e 63,5 milhões de interações relacionadas ao confronto, entre o início do debate na sexta-feira (23), às 21h20, e as 11h deste sábado (24). O volume superou o registrado no debate da TV Band, no domingo (18), que reuniu 2,7 milhões de menções e 54 milhões de interações nas 17 horas seguintes ao confronto. O pico ocorreu às 23h, com mais de 1 milhão de menções em uma hora. A principal aposta da esquerda foi a repercussão do caso Ana Clara, menina morta após ser atingida por um disparo supostamente feito por um policial militar que teve Flávio como advogado. Durante o debate, o senador se dirigiu à mãe da criança, presente na plateia, pelo nome da filha, e ouviu como resposta que ela havia morrido. As publicações sobre o episódio reuniram 10,8 milhões de interações. Desse total, 4,8 milhões ocorreram em conteúdos de veículos de imprensa e páginas de entretenimento, incluindo uma publicação do jornal "O Globo", com 1,5 milhão. Segundo a Ágora, a circulação nesses perfis ampliou o potencial de alcançar usuários fora das bases de militância política. Outra frente explorada pelos apoiadores de Lula foi a divulgação de checagens de fatos sobre o debate. Publicações que acusavam Flávio de mentir somaram 7 milhões de interações. O campo governista também repercutiu a troca de acusações em que o senador fez referência aos "nove dedos" de Lula e o presidente respondeu com o termo "miliciano". O episódio, que terminou com um pedido de desculpas de Flávio, reuniu 6 milhões de interações, principalmente em publicações de defesa do petista e conteúdos de cobertura neutra. Já os apoiadores de Flávio concentraram a mobilização em um trecho no qual Lula afirmou que iria "acabar com a polícia", em um ato falho. O episódio somou 3,1 milhões de interações, das quais 86% favoreceram a oposição. O vídeo foi compartilhado pelo governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), cuja publicação reuniu 767 mil interações, além do próprio Flávio e do deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG). O senador Sergio Moro (União-PR) também explorou o desempenho de Lula, descrevendo o presidente como "perdido, ajudado pelo apresentador", em uma publicação com 757 mil interações. A diferença entre as estratégias também apareceu nos perfis responsáveis pela circulação dos conteúdos. Segundo a Ágora, 73% do engajamento favorável à oposição veio de publicações do próprio candidato e de políticos. Do lado governista, páginas de entretenimento e perfis comuns responderam por um quarto das interações favoráveis a Lula. Na avaliação de Leonardo Milano, especialista em Dados e Analytics da Ágora Comunicação e Public Affairs, a oposição conseguiu explorar um trecho específico do debate, enquanto o governo apostou em diferentes episódios. Além das publicações espontâneas dos usuários, a repercussão do debate nas redes sociais também foi impulsionada por ações coordenadas de grupos de apoiadores dos candidatos. O “Exército do Lula”, administrado pelo deputado federal André Janones (Avante-MG), reúne mais de 10 milhões de inscritos, enquanto a “Tropa do Flávio”, vinculada à campanha do senador, ultrapassa 2 milhões. Ambos os canais mobilizam seus integrantes para compartilhar conteúdos, promover hashtags e disseminar mensagens específicas nas plataformas digitais. Indecisos têm pouca participação na repercussão do debate. Apesar das tentativas de ampliar o alcance das publicações para além das bases de apoio, manifestações de usuários que rejeitaram ambos os candidatos, criticaram o nível do confronto ou afirmaram que decidiriam o voto apenas na eleição representaram somente 0,7% das interações na amostra das mil publicações de maior engajamento. Entre os conteúdos identificados, uma usuária do X, com o perfil @lu_mtrip, escreveu que, "Lula ganhando ou perdendo", sairia "uma pessoa pior dessas eleições". A publicação reuniu 89 mil interações. Já o ex-candidato à Presidência João Amoêdo (Novo) criticou os dois concorrentes, afirmando que Lula errou ao disputar um quarto mandato e que Flávio não tinha credenciais para ocupar a Presidência, antes de anunciar voto no petista. Sua manifestação somou 133 mil interações. O colunista Gabriel Swainer, do jornal digital GZH, também criticou o confronto, classificando-o como um "retrato do nível dessa eleição". Segundo o levantamento, essas manifestações tiveram pouca presença entre os conteúdos de maior repercussão. Para Leonardo Milano, a baixa participação de manifestações de indecisão não significa que esses eleitores estejam ausentes das plataformas digitais. "O indeciso desta eleição não se manifesta nas redes, ele observa. O que chega até ele não é o corte da militância, é a cobertura da imprensa e do entretenimento." O percentual de 0,7% corresponde apenas às interações identificadas nessa categoria dentro da amostra analisada. Portanto, não representa a proporção de eleitores indecisos no país, nem permite medir quantos usuários mudaram de posição após o debate. Candidatos Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva participam de debate da Globo, mediado pelo jornalista César Tralli (centro) Agustin Marcarian/Reuters

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