Mundo caminha para aquecimento de 2,8°C, alerta ONU

O mundo terá que triplicar suas ambições climáticas até 2035 se quiser limitar o aumento da temperatura a um pico de 1,8°C antes do fim do século, o que mantém viva a chance de retornar ao 1,5°C previsto pelo Acordo de Paris. Os esforços atuais apontam para um planeta em média 2,8°C mais quente em relação aos níveis pré-industriais. Os dados são do Emissions Gap Report, relatório da Organização das Nações Unidas (ONU) divulgado nesta quarta-feira (21) que faz um balanço anual das emissões mundiais de gases causadores do efeito estufa. “Cada ano de aquecimento acima de 1,5°C aumenta os impactos e riscos climáticos, como as inundações mortais, ondas de calor e incêndios florestais”, diz Inger Andersen, diretora executiva do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma). O estudo vem para complementar o primeiro reconhecimento oficial da ONU, em setembro, de que o mundo vai aquecer mais do que 1,5°C, em média, nas próximas décadas. O relatório reforça esse ponto, e indica os caminhos para que o planeta limite esse aumento a um pico de 1,8°C, o que permitiria retornar ao 1,5°C até 2100. Para isso, seria necessário reduzir as emissões mundiais em 45% até 2035 em relação ao nível de 2025. O cumprimento das metas atuais dos países (chamadas de NDCs) só seria capaz de cortar as emissões entre 11% e 15% — e isso se elas forem alcançadas. A maioria dos principais emissores, porém, não faz o suficiente para cumprir as próprias metas. Os autores dizem que é urgente acelerar ações climáticas. Cada cinco anos sem reduzir as emissões atuais pode se reverter em um aumento de 0,1°C na temperatura, e cada fração adicional importa para reduzir a frequência e intensidade de eventos climáticos extremos. Difícil com metas, pior sem elas As emissões globais em 2025 ficaram no mesmo patamar de 2024, em 58,4 gigatoneladas de CO2 equivalente. Segundo o relatório, ainda não é possível afirmar que o nível de emissões esteja se estabilizando, mas o resultado se diferencia de um crescimento médio de 0,8% ao ano registrado na última década e de 1,7% entre 1990 e 2016. O resultado veio não da queda nas emissões decorrentes da queima de combustíveis fósseis, que apresentaram alta em 2025, mas de uma redução de emissões causadas por mudanças no uso da terra. É o caso do desmatamento e, principalmente, de incêndios e queimadas, que tiveram queda na comparação com o ano anterior, marcado por um El Niño que intensificou as chamas. Menos da metade das 20 maiores economias do mundo, responsáveis pelo grosso das emissões globais, têm políticas e esforços avaliados pela ONU como capazes de entregar os cortes propostos em suas NDCs até 2030. Os seis países que se mostram no caminho para fazer isso, como Rússia e China, são aqueles com metas menos ambiciosas. O Brasil é o país com a maior distância entre o que promete e suas políticas, uma lacuna de 37%, segundo o Pnuma. Na sua NDC, o governo brasileiro promete um corte de 59% a 67% nas emissões até 2035, na comparação com os níveis de 2005. A saída dos Estados Unidos do Acordo de Paris, anunciada em 2025 e concretizada no início de 2026, foi responsável por metade da elevação nas projeções de temperatura para a próxima década, na comparação com a estimativa do relatório do ano passado. Os EUA são atualmente o segundo maior emissor global, depois da China, mas historicamente o país mais poluidor. Mercados de carbono e outras medidas O relatório fez uma avaliação de mais de 220 estudos que estimam os impactos de políticas climáticas para a redução de emissões. Instrumentos de precificação de carbono, como sistemas de cap and trade — modelo do mercado regulado brasileiro, que está em processo de regulamentação —, resultaram em reduções de emissões que variam entre 5% e 13% em um período de cinco anos, a depender do setor e país. As maiores reduções se deram nos setores de energia e transporte. Na indústria, sistemas que impõem multas para excesso de poluentes também levaram a quedas significativas. “Desde o Acordo de Paris, políticas climáticas entregaram reduções reais de emissões ao redor do mundo e em diferentes setores”, diz Andersen, diretora do Pnuma. “Os avanços recentes provam que ainda é possível promover as reduções necessárias.” Com uma média de 9% na redução de emissões, o setor de energia foi o que mais se destacou na comparação com um cenário sem políticas climáticas como mercados de carbono e subsídios para geração renovável. Desde 2015, o crescimento no uso de energias renováveis foi três vezes maior do que a projeção da época, enquanto a geração a carvão cresceu 55% menos do que o esperado. O relatório destaca que políticas climáticas são frequentemente movidas por objetivos paralelos à redução de emissões, como segurança energética, competitividade e qualidade do ar. A crise energética que o mundo enfrenta em 2026 desde o início da guerra no Irã deve ser mais um fator nesse cenário, embora os efeitos ainda sejam incertos. Na resposta dos países à crise, o estudo elenca tanto fatores que tendem a atrasar a transição energética — como a adoção de subsídios para combustíveis fósseis e expansão do uso de carvão — quanto medidas que podem acelerá-la, como incentivos para a adoção de energias renováveis e a taxação de lucros de produtores de petróleo. O post Mundo caminha para aquecimento de 2,8°C, alerta ONU apareceu primeiro em Reset.

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