Organizações socioambientais comemoraram a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no domingo (25), mas ressaltaram que as agendas climática e ambiental devem enfrentar uma série de desafios nos próximos quatro anos. O principal deles é o Congresso. A legislatura que toma posse em 2027 — com perfil mais à direita do que a atual — tende a favorecer a flexibilização das regras ambientais. Pelas contas do Observatório do Clima, 69% dos deputados e senadores que vão compor a próxima legislatura, ou sete em cada dez, têm baixa convergência com a agenda de clima e meio ambiente, segundo um índice que considera votações anteriores e o perfil de atuação dos parlamentares. Entidades também criticam o espaço que a exploração de novas fronteiras de petróleo, como a Foz do Amazonas, teve no governo petista e cobram a revisão dessas políticas. Veja abaixo o que Observatório do Clima, o Instituto Talanoa e WWF esperam de um novo mandato, segundo notas divulgadas após a eleição. Congresso forte, Executivo limitado O Observatório do Clima, rede que reúne 172 organizações da sociedade civil, elogia a mobilização popular em torno da candidatura de Lula e diz que a virada histórica do petista sobre Flávio Bolsonaro (PL) “evita tragédia”. A rede pede “realismo” na leitura do cenário que a agenda socioambiental vai enfrentar nos próximos anos. A organização destaca que Lula assume o novo mandato com o “sistema de freios e contrapesos fragilizado”, com um Judiciário, em especial o Supremo Tribunal Federal, “desmoralizado e desgastado pelas crises internas” e um Legislativo “dominado pela extrema direita”. O Observatório lembra que o Congresso já impôs derrotas importantes à agenda ambiental no mandato atual e que, na maioria delas, o Executivo se mostrou “extremamente limitado em sua capacidade e vontade de intervenção”. A legislatura que se encerra este ano ampliou o protagonismo na pauta socioambiental, e o resultado em maioria foi prejudicial ao meio ambiente, segundo balanço da organização e do Instituto Democracia e Sustentabilidade (IDS). Parlamentares aprovaram a nova lei de agrotóxicos, fizeram avançar a tese do marco temporal e desmontaram parte do licenciamento ambiental. O Observatório ainda ressalta que os próximos anos devem marcar a ultrapassagem do limite de 1,5°C de aquecimento global, com eventos climáticos extremos cada vez mais frequentes, e cobra que o fim do desmatamento em todos os biomas seja “perseguido incansavelmente”. A rede se diz pronta para colaborar com o governo, mas avisa que isso não a impedirá de “cobrar, criticar e pressionar” sempre que necessário. Em propostas entregues aos presidenciáveis, o Observatório defendeu o fim de novos leilões de petróleo, a limitação da exploração aos poços já existentes e mais recursos para adaptação em municípios vulneráveis. A contradição do petróleo O Instituto Talanoa, think tank dedicado a políticas climáticas, afirma que democracia e meio ambiente caminharam juntos ao longo da última década, com o enfraquecimento do combate ao desmatamento sob o governo de Jair Bolsonaro acontecendo junto à contínua pressão contra as instituições. “O destino da Amazônia e o destino da democracia brasileira tornaram-se profundamente entrelaçados”, afirma Natalie Unterstell, presidente do instituto, em nota. O desmatamento na Amazônia caiu 41,8% entre agosto de 2025 e julho de 2026, para a menor taxa da série histórica, iniciada em 1988, segundo dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) divulgados este mês. Com o resultado, as emissões brasileiras de efeito estufa atingiram o menor patamar em oito anos, mas setores como transporte, energia e resíduos continuaram com uma trajetória de alta. O Talanoa critica a exploração de petróleo na Foz do Amazonas, defendida pelo governo. A perfuração na região já rendeu duas descobertas de petróleo, e o Ibama autorizou em setembro mais três poços. Organizações socioambientais entraram na Justiça contra a licença em outubro de 2025, mas a ação teve pedidos rejeitados. “Lula conquistou mais uma oportunidade, mas não um cheque em branco para o clima”, diz. Um dos próximos testes do governo, para o Talanoa, é transformar a proteção florestal em uma estratégia econômica que afaste o país dos combustíveis fósseis, algo que “não pode mais ser adiado”. Floresta como ativo econômico Para a WWF-Brasil, todos os biomas oferecem oportunidades econômicas, com empregos verdes, bioeconomia e mercados de carbono capazes de atrair investimentos. A entidade cita estudo do WRI Brasil e da New Climate Economy que estima que um modelo livre de desmatamento poderia elevar o PIB da Amazônia Legal em R$ 40 bilhões até 2050. O WWF lembra as metas que o país se comprometeu a cumprir no novo mandato: zerar o desmatamento até 2030, conservar 80% da Amazônia e 30% dos demais biomas, recuperar 12 milhões de hectares de vegetação nativa e, pela NDC apresentada ao Acordo de Paris, reduzir as emissões líquidas entre 59% e 67% até 2035, em relação a 2005. Para barrar o desmonte de salvaguardas ambientais pelo Congresso, a WWF-Brasil defende maior engajamento da sociedade civil e articulação política consistente. O post Agenda ambiental de Lula será testada por Congresso hostil apareceu primeiro em Reset.
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