Eventos extremos aproximam agenda climática e estratégia de defesa

A mudança do clima deixou de ser uma ameaça distante e passou a fazer parte da agenda de segurança e defesa. Com eventos extremos cada vez mais frequentes, as Forças Armadas brasileiras têm sido acionadas com mais regularidade para responder a desastres e precisam estar prontas para agir rapidamente, ainda que essa não seja a sua missão principal. A intersecção entre clima e segurança foi o tema do painel “Defesa e Mudança do Clima: riscos, adaptação e resiliência”, realizado nesta quarta-feira (4) em Brasília (DF), durante a 2ª Conferência Internacional sobre Soberania e Clima, organizada pelo Centro Soberania e Clima em parceria com a Escola Superior de Defesa (ESD) e o Censipam (Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia) . Izabella Teixeira, conselheira consultiva internacional do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (CEBRI) e ex-ministra do Meio Ambiente, defendeu que a mudança do clima seja tratada como tema estratégico de Estado, e não como pauta setorial da área ambiental. Para ela, os setores digital e tecnológico, de defesa e de soluções climáticas dependem da natureza, e o país não pode lidar com a questão climática só pelos desastres. Os participantes trataram o clima como uma questão do presente e não algo a se lidar no futuro. Erin Sikorsky, diretora do Center for Climate and Security, dos Estados Unidos, disse que o clima deixou de ser apenas um “multiplicador de ameaças” para se tornar “a ameaça em si”, o que abre espaço para repensar as definições de segurança nacional e o papel dos militares. “O Brasil tem a consciência hoje de que esses eventos, infelizmente, vieram para ficar”, disse o almirante de esquadra (FN) Carlos Chagas Vianna Braga, comandante-geral do Corpo de Fuzileiros Navais. Ele citou que os fuzileiros foram empregados 12 vezes em eventos desse tipo nos últimos seis anos “É difícil, senão impossível, prever com precisão exatamente o local do próximo desastre”, afirmou. Por isso, além do preparo das prefeituras e da estrutura local, o país precisa de uma capacidade de resposta institucional e robusta para chegar rápido aos locais atingidos. “Esse momento inicial é um momento crucial da resposta, porque é onde as vítimas estão acontecendo e é onde as Forças Armadas fazem a diferença”, disse. O almirante citou como exemplo o terremoto na Venezuela em junho. Em menos de 12 horas, de acordo com ele, o Brasil tinha um hospital de campanha pronto, com profissionais de saúde da Marinha e fuzileiros navais, transportado pelo cargueiro KC-390 da Força Aérea Brasileira. Foi o primeiro hospital de campanha a chegar e a começar a operar no país, à frente de outros países. Para chegar a esse nível de prontidão, a Marinha criou uma força de resposta imediata a desastres naturais e ampliou o escopo do seu Centro de Operações de Paz, existente desde 2008, para incluir operações humanitárias. A atuação envolve parcerias com a Agência Brasileira de Cooperação, do Ministério das Relações Exteriores, a Secretaria Nacional de Defesa Civil, o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e a academia. “Não é uma resposta militar, não é uma resposta civil, é uma resposta da nação brasileira”, disse. O principal teste dessa estrutura, segundo o comandante, foi a Operação Taquari 2, durante as enchentes de 2024 no Rio Grande do Sul. A Marinha deslocou meios no Atlântico, o maior navio da Esquadra, enviou o hospital de campanha no KC-390 e levou carros-lagarta anfíbios por terra, já que o navio disponível não tinha capacidade para transportá-los. Os mesmos veículos foram usados pelos Estados Unidos na resposta aos furacões Katrina e Harvey, lembrou. Na avaliação do almirante, a logística de combate guarda muitas semelhanças com a de operações humanitárias, o que torna a resposta a desastres uma capacidade dual. “Ela não compromete em nada o preparo para a defesa do país”, afirmou. Ele citou Espanha, Portugal e França, que também acionaram suas Forças Armadas em enchentes recentes. A capacidade de resposta depende, porém, de onde estão os meios e os recursos. Cerca de 70% da Esquadra e da Força de Fuzileiros da Esquadra estão concentrados no Rio de Janeiro, e os distritos navais fazem a primeira resposta local, com batalhões de operações ribeirinhas e litorâneas. “Não há como a gente ter simultaneamente uma resposta robusta no Sul, onde está acontecendo uma enchente, e na Amazônia, onde está acontecendo uma seca”, disse. O almirante também apontou a queda no investimento em defesa no Brasil, de 1,8% para 1,1% do PIB, enquanto outros países elevam esse patamar de 2% para quase 3,5%, mas sem citar o período a que se refere. Para ele, o investimento é fundamental para assegurar “uma capacidade de pronta resposta no caso desses desastres, que, como nós estamos vendo, vão continuar acontecendo”. Mariana Carpes, professora e pesquisadora do Programa de Pós-Graduação em Ciências Militares do Instituto Meira Mattos, da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (ECEME), reforçou que a atuação das Forças Armadas em desastres está prevista em lei, como apoio subsidiário à defesa civil, e que não há obstáculos institucionais nem culturais a esse papel. Ela explicou que o ciclo de gestão de riscos e desastres tem cinco fases (prevenção, mitigação, preparação, resposta e recuperação) e que a atuação militar se concentra na resposta e na reconstrução. Uma exceção são os exercícios de prevenção a acidentes radiológicos e nucleares nas usinas de Angra dos Reis (RJ). A literatura de sociologia de desastres, lembrou, trata esses eventos como “fenômenos sociais”: eventos extremos que atingem localidades vulnerabilizadas, onde faltam políticas públicas de adaptação e resiliência. “Cidades resilientes e cidades adaptadas gerem eventos extremos sem que necessariamente eles evoluam para desastres”, disse Mariana. Para ela, a prevenção depende de medidas de adaptação e resiliência implementadas pela sociedade por meio de políticas públicas, enquanto as Forças Armadas permanecem prontas “para agir nos casos em que se esgotaram as demais capacidades de resposta à crise”. O almirante também lembrou que a prevenção não é tarefa principal das Forças Armadas, mas que o papel cresce na hora da resposta. “Essa não é a atribuição fundamental ou primária das Forças Armadas, é uma atribuição subsidiária. Mas vamos cooperar porque fazemos parte da nação brasileira”, disse. Ele acrescentou que, em algumas comunidades da Amazônia, os navios de assistência hospitalar da Marinha, conhecidos como “navios da esperança”, são a única presença do Estado. Experiência internacional Erin, que participou remotamente do evento, disse que a demanda por militares na resposta a eventos climáticos extremos cresce em todo o mundo, com impacto sobre treinamento e investimentos. Segundo ela, as políticas de segurança climática mais duradouras nos Estados Unidos foram as que relacionaram os riscos climáticos à missão central das instituições de segurança, como preparação, infraestrutura crítica e logística. Ela recomendou incorporar o clima a ferramentas já existentes, como avaliações de inteligência, jogos de guerra e exercícios, aproximar agências de defesa e científicas e levar o tema à educação militar profissional. Também defendeu colocar as exigências em lei, e não apenas em atos do Executivo. Segundo Erin, investimentos em equipamento militar e infraestrutura de defesa, sozinhos, não garantem a segurança dos cidadãos sem resiliência social. O painel foi moderado por Peterson Silva, professor da Escola Superior de Defesa. *A jornalista viajou a convite do Centro de Soberania e Clima

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